A gestão das empresas públicas no Brasil é invariavelmente vista com desconfiança, sentimento cada vez mais comum nos dias atuais de grande fluxo de informações e de "terremotos" diários de escândalos. As entidades administradas pelo Poder Público não estão desacreditadas à toa. Os dirigentes destas empresas são escolhidos por meio de apadrinhamento pessoal ou partidário, sem qualquer compromisso com a eficiência da gestão. Não raras vezes, os premiados têm como função arrecadar verbas da iniciativa privada com a finalidade de financiar campanhas políticas. No setor portuário essa prática é transparente. Quando criada em maio de 2007, a Secretaria Especial de Portos (SEP) prometia reverter este panorama, com o então ministro Pedro Brito falando em indicações técnicas e gestão profissional. Uma década depois, muito pouco mudou. Recentemente, as investigações da Polícia Federal mostraram a devastadora influência de nomes como Michel Temer e Eduardo Cunha nos portos de Santos e Rio de Janeiro, respectivamente.

Agonia - Desgastados com tantos anos de privilégios destinados para poucos e de falta de critérios aplicada para muitos, membros do Sindicato dos Trabalhadores nos Serviços Portuários dos Portos do Estado do Rio de Janeiro realizaram nesta terça-feira, 3 de abril, um ato público em repúdio ao apadrinhamento político na Companhia Docas local. A mobilização aconteceu em frente à sede da estatal e reuniu trabalhadores ativos, aposentados e até banda de música. O principal alvo das críticas foi a deputada Soraya Santos (PMDB-RJ), responsável por colocar na empresa, direta ou indiretamente, diretores, superintendentes e assessores sem qualquer experiência anterior no setor portuário. Os trabalhadores também exigiram uma solução para a bilionária dívida do Portus - instituto de seguridade social da categoria - e a inclusão da categoria no Conselho de Administração (Consad) da Companhia. O ato contou com a presença do presidente da Federação Nacional dos Portuários (FNP), Eduardo Guterra.

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Ervas daninhas - Guterra ressaltou que o descaso com os portos públicos ocorre em âmbito nacional e convocou os trabalhadores a exigir gestões profissionais. "Se ainda existem empresas estatais neste País é porque nós fomos para as ruas defendê-las. Se elas não foram privatizadas é porque fizemos resistência", disse, citando Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios, além das Companhias Docas. Ele alega que os apadrinhados de todas as correntes políticas atuantes no Brasil prejudicaram as finanças das Docas, além de prejudicar o relacionamento entre os funcionários. "Em qualquer lugar do mundo os portos são figuras centrais na discussão de um modelo econômico viável, eles não podem ser tratados desse jeito aqui [no Brasil]". 


Dinheiro da estatal é vendaval - A nomeação de pessoas sem afinidade com o futuro da CDRJ "é uma traição aos portuários", esbravejou o presidente da Associação dos Profissionais de Nível Superior da Companhia, Luís Francisco de Menezes Barbosa. Ele calcula que a sociedade é onerada em cerca de R$ 600 mil por mês com a folha de pagamento desses apadrinhados. "Eles não têm compromisso com a empresa, somente com deputados e com outras finalidades".


Sabotagem - Uma das práticas comuns dos apadrinhados políticos nas Companhias Docas é desarmonizar o ambiente de trabalho e colocar funcionários concursados uns contra os outros, reclamou Nildes Sampaio, diretora de Relações do Trabalho, Social e Previdenciário do Sindicato dos Portuários do Rio. "Não estamos reivindicando aumento de salário, estamos exigindo decência na administração da Companhia Docas. Políticos entram e saem cotidianamente, não olham para trás e criam desarmonia". Além de clamar pelo fim do cabide político, ela também abordou outra polêmica questão, relativa ao buraco no qual se encontra o Portus, com dívida superior a R$ 3,5 bilhões e sob intervenção federal desde 2011. "Essa dívida imensa é da União e das Companhias Docas, agora querem dividir entre os trabalhadores. Isso é calote, é agiotagem", finalizou.


Subindo o tom - "A proposta deste desgoverno [para o Portus] é mentirosa", reclamou Sérgio Giannetto, presidente do Sindicato, a respeito da proposta do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão de reajustar a contribução mensal de associados, aposentados, pensionistas e das Companhias Docas em mais de 200%. Ele apontou a Portobras como responsável pela maior parte do calote e lembrou que "se a União honrasse seu compromisso como nós trabalhadores fizemos todos estes anos, e tem gente pagando há mais de 40 anos, não estaríamos nesta situação". Nos cálculos do Sindicato, o reajuste não garante nem dois anos de sobrevida ao plano de previdência.

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Anedota no Planalto - Sobrou também para o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (MDB), que recebeu em março deputados e representantes dos trabalhadores portuários em Brasília. Guterra criticou o homem de confiança de Temer, que teria dito não poder interferir na autonomia de outros ministérios. "Isso é uma piada para nós". O presidente da FNP acredita veementemente que nem trabalhadores nem as Companhias Docas são capazes de arcar com o reajuste proposto. Como argumento, revelou que o Porto de Itajaí, em Santa Catarina, enviou uma correspondência para o Ministério dos Transportes avisando não possuir previsão orçamentária para cumprir com tal compromisso e ameaça retirar o patrocínio do instituto de seguridade social.

Clique aqui e veja no site oficial do Portus informe sobre o aumento das alíquotas de contribuição do Plano PBP1

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