O mundo não acabou, mas o tema da última coluna resiste. Afinal, a ideia de se fazer uma coletânea com o fim do mundo como assunto nada mais é do que pretexto para publicar mais poesia. Hoje, traduzo mais dois poemas da coletânea “Poesía para el fin del mundo”, da editora artesanal Kodama Cartonera, de Tijuana, México.

Ainda que o fim do mundo seja um pretexto, os dois poemas escolhidos conversam também com o destemperado clima de verão que tem nos acometido em Santos e em todo o Brasil, que não deixa de ser também um tipo de fim do mundo. O primeiro é “Demolición del verano y el invierno (Apunte 0)”, de Wladimir Zambrano, poeta de Guayaquil, Equador, nascido em 1984.

Demolição do verão e do inverno (Anotação 0)

Desperta a folha
imediatamente seca nos lábios do ancião
mas o sol atômico avança
como uma régua de raiva
entre as pessoas e o ar.

Radiação das vozes
como emparelhamento
de eletrodomésticos vampiros;

escritura de lampreias digitais
e caninos com signos burocráticos.

Um assembleismo que é tudo,
menos a vocação dos povos
para se extender na história.
Outro mandibular do erro
quando se dialoga
com a fome dos sonhos.
Volta uma choça de crianças
até o final da chuva na garganta.
Virada de anestesia
para as redes sociais;
Termofobia no túnel dos olhos
como uma premonição de Câncer:
Picada de insetos de gelo
sobre o país de anêmicos solares.

Desmonoramento do corpo.
Perversão do verão e do inverno…

                                   *********

Cai a noite entre as ruínas…

                                   *********

E fumo folhas de meu cérebro
para que o fogo se torne sagrado…

O poema de Zambrano fecha a primeira parte do livro, “Caos na Ordem”. Em seguida, temos o intervalo com um texto da Estela Mendoza, a compiladora da obra que traz poetas principalemte do México ou que vivem naquele país, mas também representantes do Peru, El Salvador, Equador, Chile e Brasil. Junto ao intervalo que antecede a segunda parte, “Ordem do Caos”, lemos um poema da própria compiladora, “Crónica del fin”, traduzido a seguir, que vale também para os dias de calor nos quais tudo parece que acaba:

Crônica do fim

Um dia anoiteceu mais tarde
mais vermelho do que o normal e não voltou a amanhecer
a luz de um milhão de sóis não pode com tanta escuridão
a lua, antes de uma brancura resplandecente
hoje não é mais que uma córnea triste e pálida
As estrelas se apagam no céu negro, que consome tudo

Dos poucos que sobramos, os lúcidos estamos ficando loucos
e o resto perdeu a razão
mulheres cobertas de lodo perambulam nuas, animalescas
chorando por um amor extinto ou um filho morto (todo já morreram)
e os homens selvagens de novo, bárbaros
matam-se uns aos outros por um gole de vinho
ou por uns fósforos
que talvez lhes acenda a lâmpada do raciocínio
e consigam por fim entender
alguma coisa, o que seja

pobres
pobres deles, pobres de nós
pobres todos
tão necessitados de Deus
tão carentes de paz
somos uns monstros
nos restaram os dentes como fauces
as mãos como garras
olhos como canhões
escuros, vazios

Nada resta do passado e a sensatez que me sobra me faz duvidar
não sei se o prudente é rir ou chorar

Sobreviver ao fim é um suicídio
lento e doloroso
hoje eu sei
hoje, que o dia passa sem data
queimando tudo
e que a doce morte me espera
ao final da estrada
quando deixar
da porra de uma vez
de pensar

Quem quiser conhecer estes e os demais poemas do livro, “Poesía para el fin del mundo” está disponível para download, compartilhamento e leitura nos seguintes endereços:

http://es.scribd.com/doc/118155516/Poesia-para-el-fin-del-mundo

http://issuu.com/kodamacartonera/docs/poesia_para_el_fin_del_mundo

Referência
Vários autores. Poesía para el fin del mundo. Compilação de Estela Mendoza. Tijuana, México: Kodama Cartonera, 2012.

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