"Ele veio de longe
Do outro lado do mar
Ele veio de longe
Mas trouxe a terra pra cá"
- Ponto de preto velho (capítulo 12 do livro "O Corpo Encantado das Ruas", escrito por Luiz Antonio Simas, professor e mestre em História Social pela UFRJ)

Os hábitos, tradições culturais e de alimentação, instrumentos de religiosidade, línguas e genéticas dos povos negros são componentes expressivos na formação do povo brasileiro. A composição étnica brasileira é fortemente mestiçada, uma confluência dos negros africanos, colonizadores portugueses e de ondas migratórias de árabes, japoneses e europeus, bastante diferenciada culturalmente das suas matrizes indígenas. Os negros foram duramente escravizados no Brasil para produzir nos engenhos, portos e nas lavouras de café, matéria-prima esta que marcou uma época de riqueza - concentrada em poucas mãos - quando chamada de ouro verde e exportada, principalmente pelo Porto de Santos, para o mercado internacional.

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Imagem: Atlas Histórico do Brasil - Fundação Getúlio Vargas (FGV)

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O negro escravizado chegou ao Brasil junto aos primeiros conquistadores portugueses. A força de mão de obra deste povo foi fortemente explorada no período colonial do País e hoje tende a ocupar posições menos prestigiadas na sociedade brasileira moderna. Afinal, durante um longo período o País foi regido como uma feitoria escravista. No século XVII, a escravidão negra viria a sobrepujar a indígena, conforme apontam textos do marcante antropólogo e político Darcy Ribeiro no clássico "O Povo Brasileiro". No processo de produção acelerado para atender às exigências do mercado externo, a mão de obra escrava não tinha sequer o direito elementar de trabalhar para nutrir-se, vestir-se e morar.

"É evidente que o porte africano no Brasil vai ter um papel na compreensão com o que se passa no País, como o aporte europeu e hoje o aporte estadunidense. Mas isso resulta numa produção que se chama 'o Brasil'. É nele que eu quero estar como brasileiro integral! É nele que devemos estar, todos, independente da nossas origens étnicas, como brasileiros integrais, sem servos olhados vesgamente em função de nossa, repito, origem étnica", argumentou o geógrafo brasileiro - e negro - Milton Santos, que viveu no período de 1926 a 2001.

Portogente celebra as tantas conquistas dessa gente de origem africana e que pagou um preço alto por séculos e gerações para vencer suas desiguais batalhas. É importante ressaltar que em 2019 pretos e pardos, pela primeira vez, são maioria na universidades federais do Brasil. Méritos validados por uma ascensão social com origem na mais desfavorecida entre as etnias que compõem o povo brasileiro. Realidade que excede as vinte e quatro horas do dia 20 de novembro - o da Consiciência Negra - para discutir problemas e representatividade pertinentes ao ano todo, como salienta a afrodescendente Flávia Lima, ombudsman do jornal Folha de S. Paulo.

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A contribuição cultural e as conquistas dos negros africanos se constituem em um patrimônio imaterial de grande relevância para o Brasil, bem como devem instituir um compromisso de reconectar a África com o nosso território e com as nossas instituções. É com orgulho que Portogente registra a presença de dezenas de alunos de Angola e Moçambique em seus cursos gratuitos online como parte dessa caminhada. Da mesma forma, o porto autônomo de Cotonou, no Benim, nação cujo principal idioma é o francês, é um elo da cadeia estratégica desta plataforma de Internet para a travessia reversa do Atlântico, em direção à África negra.

Cidade mais importante do Brasil nos primeiros séculos desta nação, o Rio de Janeiro recebeu uma de cada cinco pessoas no mundo que foram escravizadas no período de 1500 e 1856. "As ruas que circundavam a Praça Onze de Junho - o nome homenageia o dia da vitória brasileira na Batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai - e a região portuária da cidade era como uma África fincada no coração de um Rio de Janeiro tensionado pelo sonho cosmopolita de suas elites", escreve Luiz Antonio Simas em "O Corpo Encantado das Ruas".

Consciência Negra é uma reflexão oportuna para projetar uma missão para o Brasil, de tantas raças e com muito negro na sua cor. Construir uma ponte atlântica de relações com a África Negra pode ser muito produtivo social, economicamente e, acima de tudo, sob a ótica existencial. É preciso valorizar a vida e os seres humanos, que começam a sentir um esvaziamento com a velocidade da criação de novas tecnologias - e sua eventual substitução no setor produtivo. Portogente, a partir deste editorial, se compromete a colaborar com reflexões que busquem cooperar para sociedades mais igualitárias através do comércio marítimo.

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*O Dia a Dia é o editorial do Portogente publicado de segunda a sábado e expressa fielmente a posição coletiva dos responsáveis pela redação do website