Suzana retrato editadaSuzana Pires [foto ao lado] é uma fotógrafa gaúcha que coloca seu olhar diferenciado sobre a natureza (sua beleza e imensidão), o concreto (seus espaços de resistência) e a beleza que existe em cada mulher. Seu olhar fora do padrão está ligado a sua opção de vida, profundamente ligada à defesa dos seres vivos – humanos, animais e plantas. Sua câmera é um instrumento para registrar o mundo a partir do que Suzana Pires é. “Gosto de olhar para o infinito, as nuvens, as estrelas, a lua, o sol. Eles me redimensionam, me recolocam no meu lugar, no ínfimo que sou”, conta ao Portogente a fotógrafa do Rio Grande do Sul, que narra com uma riqueza de imagens as dinâmicas da vida e da natureza. Confira, a seguir, a beleza da entrevista com a repórter-fotográfica.

Portogente - Seu trabalho tem um olhar sobre a natureza e a relação das pessoas com ela, especialmente a sobrevivência no meio ambiente. Essa relação da natureza que sobrevive no concreto e da humanidade que sobrevive das intempéries. De onde vem esse olhar?
Pires - Da minha opção de vida. Eu controlo a minha fotografia, não ela a mim. Neste caso a câmera se transforma num instrumento do que eu sou, da minha postura na vida, do que penso. Minha fotografia me representa, no exato sentido disso. Sobre a natureza e o meio ambiente, a preocupação é com os humanos e outras espécies que considero tanto quanto, não com o "planeta" – ele esteve aqui milhões de anos antes de nós e assim permanecerá milhões de anos após sermos extintos. Nós, humanos, povoamos o planeta hoje com cerca de 7 bilhões de seres, que necessitam alimentar e defecar diariamente e, para isso, produzimos centenas de milhões de resíduos todos os dias, poluímos a água que precisamos para viver, e jogamos na mãe terra milhões de litros de veneno, isso sem falar nas guerras etc., refiro-me apenas ao ato de manter-se vivo, hoje. Ainda apenas sobre a sobrevivência diária, perdemos o contato com a produção do nosso alimento, não sabemos quem o produz, de que forma ele chega a nós, e em quais condições. Vamos ao mercado e pegamos nas prateleiras alimentos embalados e os levamos para casa e esse ato nos parece "natural". A pergunta que me faço diariamente é: Até quando o planeta suportará esse nosso "aparente" conforto? Minha fotografia tenta, mas nem sempre consegue, falar sobre isso numa linguagem visual que qualquer pessoa, com qualquer nível de instrução e em qualquer cultura do planeta, entenda.

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Portogente – Que projeto seu está em andamento atualmente?
Pires - Tenho um projeto para o qual estou buscando financiamento, onde pretendo acompanhar a vida dos agricultores familiares da zona rural da cidade que resido, Lomba Grande [em Novo Hamburgo, RS]. Lá existe um grande número de famílias que planta sem o uso de agrotóxicos e vende sua produção em feiras em Novo Hamburgo, direto ao consumidor. O trabalho que pretendo fazer é o de sensibilizar as pessoas para o fato de que conheçam quem planta seus alimentos, falem com eles, olhem no seu rosto. Essa relação humaniza a vida e dá valor ao que considero realmente existencial, poder, de certa forma, agradecer àqueles que plantam meu alimento, preocupados com que seja o mais saudável possível.

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Portogente - Você é uma observadora do tempo, do clima, dos ventos. Essa sua fascinação pelas mudanças climáticas tem a ver com seu olhar sobre as profundas mudanças que vem sofrendo o Planeta?
Pires - Sim e não. Gosto de olhar para o infinito, as nuvens, as estrelas, a lua, o sol. Eles me redimensionam, me recolocam no meu lugar, no ínfimo que sou. Pensar naqueles bilhões de tudo, em termos de espaço, de elementos povoando esta imensidão toda. Falo em redimensionar, porque os humanos que encontro diariamente só olham o mundo, na altura do próprio olhar, em linha reta. Quando existe uma pessoa que gosta de olhar os movimentos das nuvens, de olhar a chuva e deter-se num por do sol, em geral é considerado pela maioria "meio maluco". Tenho um amigo que fala sempre que as pessoas me acham maluca porque abraço árvores, mas não acham maluco quem as destrói. Para a maioria, o "mundo" são os acontecimentos terrenos, por mais medíocres que sejam, fofoca, disputas, ódio. Como passo grande parte do meu dia nisso, quando tenho uma folga, olho, e olho e olho, para o espaço, para as manifestações do tempo/clima e tem vezes que fotografo, mas a fotografia nunca, absolutamente nunca, pode substituir esse tempo de olhar. Além disso, adoro as mudanças, as tempestades, as chuvas e todo o restante. O planeta é vivo, isto é a vida dele. Gosto disso.

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Portogente - Observamos na sua página que você fotografa muitas mulheres em momentos descontraídos e espontâneos. De onde vem essa sua busca por uma estética diferenciada no olhar sobre as mulheres?
Pires - A questão é muito semelhante ao que já citei. As mulheres são uma metade oprimida do planeta, mas uma metade muito especial. As mulheres são as geradoras e mantenedoras da vida. Duvido que se dependesse das mulheres, haveria guerra. Elas guardam, cuidam e se preocupam com sua criação, seus filhos. Quando vejo uma guerra, sempre penso nas mães, por mais que eu odeie alguém, sempre, mas sempre lembro: ele tem uma mãe, ela vai chorar sua morte, seu sofrimento. E mais especificamente em relação à fotografia, nos últimos tempos, tenho mudado um pouco meu foco, trabalho menos com reportagens e achei no "ensaio fotográfico" de pessoas, um lugar. Me expresso nele, tento fazer com que as pessoas percebam que fazer um "ensaio sobre si" não é coisa de profissional, tipo modelo, mas um agrado, um "olhar-se", um guardar-se. E nesse trabalho as mulheres têm tido um lugar especial, pois registrá-las é uma forma de valorizar sua existência. Gosto muito da ideia de que fotografo pessoas que nunca antes se pensaram pousando. Em geral elas adoram. Fico feliz. 

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