Entre 02 e 10 de abril de 2015, a cidade de Santos, e o país todo, acompanharam com grande angústia e enorme apreensão, um drama, uma tragédia ambiental: o incêndio em 6 tanques de etanol e gasolina da empresa Ultracargo no bairro da Alemoa. Cada tanque tinha capacidade de um milhão de litros.
Não houve vítimas fatais. Moradores das vizinhanças, funcionários e os heróis que combateram o fogo tiveram como consequências complicações respiratórias e chuva ácida. 15 feridos.
Já a natureza sofreu bem mais: estima-se a morte de uma quantidade de peixes entre 7 e 9 toneladas, vítimas do aquecimento e da poluição da água do mar por produtos químicos. Peixes de 142 espécies foram identificados e pelo menos 15 dessas espécies sob ameaça de extinção.
A investigação do Ministério Público Federal apontou como causa do acidente uma falha operacional. As tubulações de sucção e de descarga dos combustíveis estavam funcionando fechadas e isso teria provocado acúmulo de pressão e levado à ruptura de uma válvula e vazamento dos produtos. A perícia descartou outras causas especuladas pelas fofocas ou pela popular "rádio-peão", como um curto-circuito numa ferramenta ou o uso de um maçarico para instalação de uma escada.
Dez anos depois, o que mudou para prevenção desse risco e para aprimoramento dos métodos de enfrentamento desse tipo de acidente?
Essa pergunta mobilizou nesta semana a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos, que participou ativamente, na época do incêndio, junto com o CREA-SP, de um grupo de trabalho que resultou num relatório de recomendações que teve como objetivo essa prevenção e esse aprimoramento.
Da mesma maneira como as empresas de operação portuária aprenderam a evitar riscos com poeiras combustíveis depois de uma sequência de incêndios em terminais de açúcar, o incêndio da Alemoa trouxe múltiplas e valiosas lições. Por sinal que essas poeiras também tiveram estudos apresentados na promoção desta semana na AEAS.
Na Alemoa, foram utilizados 8 bilhões de litros de água salgada, disponível pela proximidade. Com pelo menos 3 inconvenientes:
1) A temperatura aproximada de 800° Celsius fazia com que a água evaporasse antes de chegar nas chamas.
2) A devolução dessa água aquecida ao mar provoca prejuízos ambientais severos.
3) Os sais dissolvidos nessa água reagem com os produtos incendiados.
Foram utilizados também mais de 500 mil litros de Líquido Gerador de Espuma. Isso representou todo o estoque do país e mais a importação do produto a toque de caixa. Eficiente para combater o fogo, o LGE e outros produtos químicos colaboraram decisivamente para a tragédia ambiental pela poluição.
A multa aplicada pela Cetesb teve o valor de R$ 22,5 milhões. A indenização pleiteada pelo MP-SP tem valor bem mais alto: R$ 3,6 bilhões.
A tecnologia de combate a esse tipo de incêndio evoluiu muito nestes 10 anos. Os produtos e técnicas apresentados na promoção da AEAS nesta semana teriam minimizado drasticamente os danos ambientais.
A operação portuária ficou bastante prejudicada naquele período pela impossibilidade de trânsito na área do incêndio. Foi criado um esquema de utilização do sistema viário de Santos no período da madrugada pelos caminhões com cargas para embarque e desembarque.
Também nessa área: a operação do maior porto da América Latina, vital para a economia do país, houve aprendizado.
Por último, mas muito importante: a operação desse tipo de granéis líquidos em Santos, como na Ilha Barnabé, e também de outras cargas, como nitrato de amônio, precisa de cuidado e atenção permanente. No caso da Ultracargo, o distanciamento adequado dos outros mais de 160 tanques impediu que a tragédia tivesse proporções catastróficas.








