Especial para o Portogente

A doutoranda em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Francine Pereira Rebelo, 29 anos, é uma estudiosa que pesquisa o campo de motoristas de caminhão no País. Tal interesse tem motivação na sua própria experiência de vida e trajetória familiar: seu avô e seu pai foram motoristas e ela mesmo viveu na boleia por um ano. Já fora das estradas dedicou-se a compreender esse mundo sob grandes rodas e eixos. Sua pesquisa obteve destaque por conta da greve dos caminhoneiros iniciada no dia 21 de maio último, e cujo término criou controvérsias na data; mas até o final do mês podia-se falar no movimento e seus reflexos. Alguns indicam que o movimento durou 16 dias.

Francine caminhoneiraFrancine quando ainda estava na estrada, mas hoje estuda o lado humano do setor. Foto: Arquivo pessoal. 

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Seu trabalho de conclusão de curso da graduação foi “As batonetes: uma etnografia das mulheres motoristas de caminhão”. Desde então vem observando a vida real de trabalhadores e trabalhadoras desse setor, fazendo uma ponte com estudos acadêmicos. A recente mobilização da categoria fez Francine falar sobre o caráter humano dessas pessoas e suas histórias particulares, que foi sua reflexão apresentada no debate “Greve dos caminhoneiros: condições de trabalho e implicações políticas”, realizado no dia 13 de junho último, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC, na capital catarinense Florianópolis.

A pesquisadora falou com cautela sobre o tema, pois quer evitar generalizações devido à falta de pesquisas sobre o setor e o que ela afirma ser uma baixa escuta desse campo profissional, mas apresentou algumas hipóteses que levaram a greve. Uma dessas é que “há um sentimento de que sujeitos caminhoneiros não são escutados e que eles não sabiam o que estava acontecendo com eles mesmos e no Brasil durante o processo de paralisação. O que nos leva a perguntar como se escuta esse setor da classe trabalhadora?”

Outro elemento que Francine levantou foi sobre a afirmação de setores da mídia tradicional, seguido de parcela da sociedade, de que o movimento era um “locaute” e não greve, pois caminhoneiro não é trabalhador, deslegitimando o movimento. Para ela, é preciso criar uma aproximação com esse grupo social, ouvir o que ele tem a dizer e entender sua visão de mobilização social. “A nossa cultura política é acostumada a ter porta-vozes e uma liderança no comando, o que não aconteceu com essa greve, que era descentralizada, tinha vários pontos de mobilização, centenas de lideranças, até pela característica da profissão de ser itinerante e de não saber o que será o amanhã”, analisou. E prosseguiu: “Não há um sindicato enraizado nesse setor, há disputas internas e relações de poder desiguais, há uma diversidade de pautas, há questões trabalhistas sensíveis, e a geografia de um país gigantesco que dificulta a mobilização e a comunicação.”

Em relação à comunicação, a antropóloga observou que existe uma base de redes sociais reais e virtuais no cotidiano da vida de caminhoneiros que favoreceram a mobilização de maio último. “A comunicação está presente na vida desses profissionais. Historicamente se comunicam pelo PX, o rádio amador, com sua linguagem e jeitos próprios, como batonetes que são mulheres caminhoneiras. Entretanto a comunicação tem migrado para o Whatsapp para ajudar a superar o isolamento e a solidão da profissão”, explicou.

Para Francine, a greve dos caminhoneiros impactou a vida da sociedade brasileira, despertando nas pessoas um interesse em saber mais sobre a categoria, que saiu da invisibilidade ao causar a “falta” de mercadorias nas gôndolas. “Só notamos a sua existência por que afetou a economia e diretamente as nossas vidas, mas até então não olhamos para o caráter humano dessas pessoas e suas precárias condições de trabalho e as horas exaustivas na direção, o stress e medo constante de assalto e sequestro da carga, além do cumprimento dos prazos de entrega. E o medo de levarem seu caminhão que, além de seu ganha pão, é também sua casa”, salientou.

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