Mário Lanznaster, presidente da Cooperativa Central Aurora Alimentos e vice-presidente para o agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc)

Toda crise, por mais pavorosa que seja sua origem e por mais graves que sejam seus efeitos, tem um aspecto positivo. A presente crise política, ética e econômica que se abateu sobre a Nação brasileira pode ter um resultado positivo se revestirmos nossas avaliações com a visão independente, a sensatez do raciocínio lógico e a capacidade de interpretação dos fenômenos subjacentes.

Vivemos um violento choque de realidade provocado pelo desemprego crescente que infelicita as famílias, pelo processo inflacionário que ressurge, empobrece a população e devora a qualidade de vida, pelo descontrole fiscal que eliminou a capacidade de investimento do Estado e até de manutenção dos serviços públicos e pelas práticas ilícitas, irresponsáveis e corruptas de parte dos agentes públicos.

Tenho fé que esse choque de realidade leve a sociedade brasileira a compreender e aceitar que não existe salvação para o País sem um reforma do Estado brasileiro para dar racionalidade a esse mastodonte caro e ineficaz, que drena recursos dos setores produtivos, consome-os em bolsões insaciáveis do funcionalismo público e devolve muito pouco em obras e serviços.

Não quero ser redundante, mas as deficiências na saúde, na segurança pública e na infraestrutura agudizam-se a cada ano, enquanto a arrecadação tributária cresce (exceção para esse período de crise, obviamente). Não é mais possível pagarmos 88 tipos de diferentes tributos.

Dos gastos do Estado, 90% são obrigatórios e 75% são indexados. Os 1 milhão de aposentados do setor público consomem muito mais recursos que os 20 milhões de aposentados do setor privado. A velha e desatualizada legislação trabalhista brasileira não protege o trabalhador porque se tornou, na prática da economia e do mercado de trabalho, um fator de desempregabilidade e desestímulo a novos empreendimentos.

A reforma também deve ser política, destacando-se as vantagens do sistema eleitoral distrital misto, que melhora e equaliza a representatividade de todas as regiões e fortalece e aperfeiçoa a democracia representativa verde-amarela. Nesse aspecto, mister se torna reduzir a gastança do Poder Legislativo nas esferas federal, estadual e, em muitos casos, municipal. É um inaceitável acinte a sociedade o fato de o perdulário Parlamento brasileiro ser o mais caro do Mundo, absorvendo bilhões de reais por ano para manter uma estrutura de privilégios incompatíveis com o quadro de carências e necessidades nacionais.

Os melhores especialistas em contas públicas não têm dúvidas: logo não haverá dinheiro para salários, aposentadorias e serviços essenciais. Por isso, acredito que a presente crise expôs com toda sua crueza essa situação e todos os brasileiros, em menor ou maior grau, estão sendo vergastados pelos seus deletérios e dolorosos efeitos. Esse real desconforto faz com que, lentamente, surja e se fortaleça na mente das pessoas, que sem reformas não haverá futuro. Esse choque de realidade levará a um choque de gestão, que iniciará com as reformas. É hora de sairmos da zona de conforto.

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