Élcio Brito, João Seixas e Leandro Franz*

"Em 2050 teremos bilhões de pessoas inúteis". A afirmação é de Yuval Harari, autor dos best sellers Sapiens e Homo Deus. Suas alegações são consideradas exageradas por alguns, enquanto para outros é uma demonstração de coragem. A revolução cognitiva está produzindo, de forma acelerada, exemplos de atividades nas quais a máquina superou o homem. Recentemente, 20 advogados foram superados por um programa de machine learning na tarefa de avaliação de um contrato típico de confidencialidade, tanto em termos de precisão quanto de velocidade. O aplicativo apresentou 94% de acerto contra 85% alcançado pelos advogados, com uma larga vantagem temporal: 26 segundos contra 92 minutos, para a execução da tarefa por humanos.

O fim de diversas profissões por conta da tecnologia não é novidade na história humana. Para Klaus Schwab, presidente do World Economic Forum, a humanidade já demonstrou por três vezes sua capacidade de criar profissões e vagas de trabalho em volume superior ao perdido para a tecnologia. O problema, agora, é que esta nova revolução em curso parece destruir empregos numa velocidade muito maior do que a sociedade está sendo capaz de criar novos postos.

Uma vez pacificado que o fim dos empregos decorrente da automação não será uma fatalidade restrita às profissões do chão de fábrica é razoável questionar: em qual ambiente surgirão as oportunidades para a criação de novas profissões?

Para George Westerman, cientista líder do MIT em Economia Digital, e seus colegas, possivelmente as empresas hoje com melhores chances de serem relevantes no futuro são as que estão à frente dos seus pares nas transformações de suas operações. Aquelas capazes de usar a tecnologia para transformar suas operações em algo totalmente novo. Os gestores não devem ficar presos a propostas de uso da tecnologia como meio para produzir uma lagarta mais veloz (WESTERMAN, 2016), devem usar a tecnologia para com o objetivo de produzir uma borboleta.

Uber, Aibnb etc. são exemplos de empresas que se aproveitam das tecnologias da quarta revolução para hackear ativos, deixando o problema para quem possui o ativo e ficando com o lucro, na visão de alguns. Mas isso não deixa de ser um uso positivo da estratégia de asset hacking, quando se considera que se entrega de fato uma maior eficiência na utilização dos ativos para a sociedade.

Quando se agrupa as etapas do processo de criação de um produto ou serviço digital em dois conjuntos, temos uma parcela grande de atividades de pesquisa e desenvolvimento que vem antes da desmonetização e uma outra após. Na parcela antes da desmonetização, ligada à inovação, é onde teremos o campo de batalha pelos empregos no futuro.

"Não conseguimos resolver um problema com base no mesmo raciocínio usado para criá-lo", Albert Einstein.

Parece que estamos seguindo por um caminho de formatação de uma nova sociedade onde no final o Brasil não se encaixa. Reverter o estágio atual de deterioração do planeta é provavelmente o maior moonshot a ser perseguido pela humanidade. Moonshot, na definição oferecida pelos membros da Singularity Univesity, é um projeto cujo impacto alcança bilhões de pessoas, cujas tecnologias necessárias podem ainda não existir e que envolve a colaboração de múltiplas organizações (BERMAN, 2017).

A conclusão é óbvia: não se preocupe com os empregos, preocupe-se em inovar em produtos e serviços para antever as necessidades de um cliente cada vez mais exigente. O novo cliente, que rejeita o asset hacking no meio ambiente e exige que as externalidades negativas sejam compensadas, já é responsável por diversas novas funções e etapas nas cadeias de valor das empresas. Desde necessidades cada vez mais intensas em termos de segurança digital, design, storytelling, user experience e marketing, até novas etapas de processos como rastreabilidade, certificações, pesquisas, manipulação genética e reciclagem.

*Élcio Brito e João Seixas são diretores de tecnologia da SPI Integração de Sistemas LTDA. Leandro Franz é consultor da People Strategy

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