O Porto de Santos é um dos principais geradores de renda e de empregos da Cidade. Afirmação constantemente repetida por autoridades santistas das mais diferentes áreas. É consenso entre trabalhadores e empregadores que o êxito do porto é fundamental para desenvolvimento não só do município de Santos, como de toda região.

 

Dessa forma, trabalhar no porto foi motivo de orgulho e status para todo tipo de profissional. Não são poucos os que hoje exercem funções no Porto de Santos e que vêm de família de estivadores, ensacadores e de trabalhadores intrinsecamente portuários. Mas será que, atualmente, esse orgulho ainda existe? Os portuários gostariam que as próximas gerações de sua família exercessem o mesmo tipo de trabalho?

 

Vários trabalhadores foram questionados sobre o tema em festa promovida pelo Órgão Gestor de Mão-de-Obra (Ogmo), no último sábado, dia 13, em comemoração ao Dia dos Pais. O evento teve como objetivo integrar a família do trabalhador portuário avulso ao Ogmo.

 

Compareceram à festa 27 trabalhadores e 47 crianças entre seis e onze anos. Em meio às gincanas que foram realizadas para entreter os presentes e à churrascada de confraternização, novatos e veteranos trabalhadores avulsos refletiram sobre as condições de trabalho no porto e sobre o costume de encaminhar os filhos para que atuem nos mesmos cargos e funções.

 

Paulo Henrique Pereira da Silva, de 40 anos, foi o participante que levou o maior número de filhos para a festa: quatro, todos do sexo masculino. Ele conta que tem duas outras crianças, mas que as deixou em casa pois ainda não têm idade para freqüentar o evento. Filiado ao Sindicato dos Trabalhadores de Bloco, Paulo exerce diversas funções no porto, como apeação (amarração) e desapeação das cargas, limpeza de tanque e conservação de embarcações.

 

Filho único, ele ressalta que vem de uma família eminentemente portuária. “Meu pai foi um dos fundadores do Sindicato de Bloco. Ele não queria que eu trabalhasse no cais, mas está no sangue. Já fui até Policial Militar, mas o porto é o local onde mais gostei e gosto de trabalhar”. O trabalhador de bloco prefere não se posicionar quanto ao futuro dos filhos. Paulo afirma que seus garotos terão respaldo na profissão em que escolherem. “E caso escolham trabalhar no porto ficarei feliz, trata-se de uma profissão muito digna”.

 

Paulo destaca que há onze anos exerce funções portuárias e que, desde então, sua vida, em especial na área financeira, mudou para melhor. Ele aponta os cursos de especialização oferecidos pelo Ogmo como principais responsáveis por essa evolução em sua carreira. “Aprendi na teoria e na prática”, salienta. De acordo com o trabalhador, a diminuição no número de postos de trabalho no porto acontece pela falta de qualificação das pessoas. “É por isso que invisto na educação dos meus filhos e especialmente na minha”.

 

Um dos mais antigos trabalhadores portuários presentes na festa, o estivador Jairo Alves Galvão começou no porto em 1970, aos 18 anos. Hoje com 53 anos e cinco filhos (quatro deles maiores de idade), está bastante pessimista quanto ao futuro de sua profissão. “Não quero que meus filhos sejam estivadores. O cargo está em extinção”, ressalta. Ele afirma que a estiva nunca irá acabar, mas com a modernização a demanda por mão-de-obra irá diminuir drasticamente.

 

Jairo também é de família portuária. Seus avós exerciam a profissão. Ele conta que a estiva passou por bons momentos, mas hoje o cenário é bem diverso. Segundo o estivador, a modernização até melhorou as condições de trabalho, mas piorou os ganhos financeiros. “Além disso, ainda falta higiene para o trabalhador. Falta até banheiro. A modernização, para nós, só está no papel. Só existe para o patrão”, enfatiza. Jairo garante ter orgulho da sua profissão, mas guarda muita mágoa por causa da deteriorização pela qual a profissão vem passando nos últimos anos.

 

Sua mágoa contrasta com a satisfação de Edinaldo Dias Tavares, 43 anos. Há pouco mais de uma década atuando no porto, diz que não acompanhou os momentos pelo qual o porto passou anteriormente, mas que sua condição financeira melhorou bastante ao entrar nesse segmento.

 

Edinaldo trabalha na área de capatazia. Concorda com Jairo na falta de segurança e de higiene para os trabalhadores do porto. Ele conta que sempre que vai para o trabalho, pensa e se preocupa com suas duas filhas e que gostaria que existissem melhores condições para exercer sua função. Edinaldo afirma que não vê suas filhas trabalhando no porto e que elas, apesar de ainda crianças, já até escolheram suas profissões: “Uma quer juíza e a outra deseja se formar em medicina. Tenho orgulho de trabalhar no porto e conseguir reunir recursos para realizar os sonhos delas”.
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