Ser um trabalhador de bloco exige muita concentração e, claro, condicionamento físico. Isso porque a principal função desta categoria é a conservação e manutenção das embarcações que atracam no porto. Os trabalhadores de bloco realizam, entre outras atividades, a apeação (amarração) e desapeação das cargas, limpeza de tanque, batimento de ferrugem dos navios e pintura. Depois da sacaria realizada pelos estivadores, o trabalho que exige maior esforço físico é a apeação feita por eles.

 

Atualmente existem cerca de 380 homens em atividade com média de idade de 40 anos e salário em torno de R$ 3 mil. O presidente do Sindbloco - Sindicato dos Trabalhadores de Bloco nos Portos de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e São Sebastião, Jozimar Bezerra Menezes, conta que este trabalho sempre foi feito por estivadores. Em dezembro de 89 acabaram as agências de bloco que forneciam a mão- de-obra especializada. Houve um rompimento e a função foi dividida entre a estiva e o sindicato dos trabalhadores de bloco. Nesta época, recorda, existia um certo menosprezo do estivador com o pessoal do bloco. Hoje, "o relacionamento entre trabalhador de bloco e estivador é como se fosse de irmão, vivem brigando, mas estão sempre juntos", brinca Jozimar.

 

Ele lembra com saudades dos 10 anos em que atuou no cais santista. Natural do Rio Grande do Norte, como a grande  maioria dos trabalhadores de bloco, chegou a Santos aos 27 anos e depois de um mês já estava trabalhando no cais. “Naquela época, fevereiro de 85, existia muito trabalho no porto”. Lembra do seu primeiro dia de trabalho. “Nunca tinha visto um navio de perto. Precisei fazer a pintura na casa de comando em cima de uma tábua a uma certa altura. O problema é que sempre tive medo de altitude”, recorda animado.

 

Ao ser questionado sobre o trabalho mais cansativo que já exercera, imediatamente lembrou de um navio grego e de um comandante nem um pouco amistoso. “Cheguei a trabalhar 19 dias e 19 noites, e quando acabei o serviço, o comandante pediu para que fizéssemos toda a apeação novamente. Não tinha ficado do jeito que ele queria”, relembra.

 

Ele diz que o trabalho portuário é divertido e que existe muito companheirismo e cumplicidade entre os trabalhadores de bloco. Por não haver uma fiscalização do trabalho, a cobrança é feita pelo próprio grupo, já que todos recebem o mesmo salário pelo período de seis horas de trabalho. Na sua opinião, a responsabilidade deveria estar em primeiro lugar. Mas, afirma que a indisciplina no Porto de Santos é muito grande.

 

Um agravante dessa situação de “quase autonomia absoluta” é o envolvimento da maioria dos trabalhadores com a bebida. Jozimar conta que só neste ano três parceiros de bloco morreram devido ao consumo de álcool. Ele afirma que muitos trabalham bêbados dentro das embarcações e do cais santista. Mesmo conscientes dos riscos de acidentes, os trabalhadores além de beber em serviço, ainda se expõem e não utilizam os equipamentos de segurança. 

 

Jozimar não nega as raízes. Falante e boa prosa, conta que assumiu a presidência do sindicato em 2003. Sente saudades da beira do cais e da amizade sincera dos companheiros. A função de sindicalista, segundo ele, é muito ingrata. Vê sua vida particular invadida e mais exposta. E apesar da dedicação ao sindicato, sente a inveja de alguns colegas de profissão.

 

Desavenças à parte, fala com orgulho da sua mais recente conquista: a aquisição de uma sede para o sindicato depois de 26 anos de fundação. Ele é o segundo presidente que exerceu a função de trabalhador de bloco. Por causa disso, acredita que entende melhor a realidade e as reivindicações da sua categoria. Garante que conhece cada parceiro pessoalmente pelo nome e sobrenome.

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