O transporte ferroviário no Brasil passa por uma crise, quem diz isso com todas as letras é o ex-presidente da Ferroeste, Samuel Gomes. “Não é meramente uma crise de crescimento, como dizem os fundamentalistas da privatização. É uma crise de modelo”. Por sorte, observa, existem duas agendas que oferecem a possibilidade do país acertar o passo neste começo de século XXI. “De um lado, o modelo da privatização, passados já 15 anos de sua vigência, mostra agora todos os seus horrores, graças à reação da sociedade e ao trabalho do Ministério Público Federal. De outro lado, por ser inaceitável a replicação modelo privatista falido nas novas ferrovias em construção pelo Governo Federal (Valec), abre-se a oportunidade de reiniciarmos a construção de um sistema ferroviário nacional em novas bases, em que as ferrovias se integrem a um plano nacional de desenvolvimento”.

 

Para o também especialista em logística e transporte, o problema é que o Brasil não tem plano nacional para as ferrovias, ao mesmo tempo ele acredita que a presidenta Dilma Rousseff pode vir a construí-lo, mas sem contar muito com a Valec e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). “[Elas] dizem coisas contraditórias, anunciam medidas e em seguida recuam, amedrontadas por pareceres de ex-ministros do STF [Supremo Tribunal Federal] contratados pelo lobby privado da ANTF [Associação Nacional de Transporte Ferroviário]”.

 

Gomes entende que o Estado deve assumir um papel substancialmente diferente do que assumiu nos governos FHC e Lula. “Não basta construir ferrovias: é preciso um modelo de gestão que ordene o seu uso em favor do País”. Ele cita o exemplo da China que tem um Ministério das Ferrovias, enquanto no Brasil “temos uma miríade de órgãos que não se integram num planejamento digno desta qualificação (Dnit, ANTT, Valec, secretarias de ministérios, etc)”.

 

Segundo Gomes, o País não tem mais transporte ferroviário de passageiros intermunicipal, interestadual e internacional e o transporte de cargas está oligopolizado nacionalmente. “Na verdade, são apenas duas empresas que dominam o setor: a Vale e suas empresas vinculadas, e a América Latina Logística (ALL)”.

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