Eram 4h30 da madrugada de sexta-feira (1) quando o estivador Rubens da Silva Ruas, de 56 anos, foi visto pela última vez com vida. Informações dão conta de que ele teria terminado de talhar um dos porões do navio Aplanta, de bandeira liberiana, atracado no Terminal Marítimo de Guarujá (Termag) no Porto de Santos, e se dirigido a um outro porão do navio carregado de enxofre.

 

Descumprindo o acordo coletivo de trabalho firmado em 20 de dezembro de 2006 com o Sindicato dos Estivadores, a Termag, solicitou para aquela operação somente um terno composto por 1 contramestre geral, 1 contramestre de porão, 2 sinaleiros e 4 trabalhadores, além de três máquinas pá-carregadeira. No momento em que o estivador Rubens Ruas teria se sentido mal com o gás do enxofre ele se encontrava sozinho no porão, sem a presença do portoló (sinaleiro).

 

Para o 2º secretário do Sindicato dos Estivadores, Marco Antônio Bonfim, Ruas teria sentido o forte cheiro do gás e resolvido sair da máquina. Infelizmente, não deu tempo dele correr. Já sem vida, ele foi encontrado por um colega de terno por volta das 6h ao lado da máquina em que operava, com metade do rosto submerso na água.

 

Ao chegar no local, Bonfim, se deparou com a falta de equipamentos adequados para a operação. “Eu tirei fotos dos quatro cantos do navio e não encontrei nenhum exaustor. Sem o exaustor, o gás fica confinado no porão, não sai. Se tivesse exaustor não teria o gás lá dentro. Esse gás faz a pessoa desmaiar”. O gerente do Termag conseguiu afirmar que “todos os equipamentos foram fornecidos aos trabalhadores”. 

 

O cheiro forte do enxofre chegou a causar tamanho incômodo aos moradores da Ponta da Praia, em Santos, que a Cetesb precisou ser acionada.

Não havia exaustor em nenhum dos cantos do navio

 

Para a operação de enxofre, uma das mais perigosas do cais, é imprescindível a presença de exaustores nos porões e máquinas em perfeito estado de funcionamento. “Máquina que não tem uma rápida reversão é problema. Essa máquina que está aí, você acelera e ela não vem, principalmente com a pá cheia. Elas têm ar-condicionado e cabines adaptadas. O ideal seria trabalhar com uma máscara de oxigênio para qualquer emergência”. Bonfim ainda conta que há um mês o presidente do sindicato, Rodnei Oliveira, foi ao Termag questionar as condições das máquinas.

 

Sobre o socorro, o sindicato alega que houve uma demora de 45 minutos desde o comunicado do acidente até o acionamento da ambulância. Ao chegar ao local, o médico atestou a morte do trabalhador.

Eletrocardiograma comprova que a morte
do estivador ocorreu no local de trabalho

 

A falta de estrutura é tamanha que o corpo do estivador foi retirado de dentro do porão sob um estrado de madeira. Nenhuma maca estava disponível no terminal. 

 

A certidão de óbito deu como causa da morte “edema agudo no pulmão, insuficiência respiratória, aguardando exame laboratoriais”. 

 

De acordo com a filha Tatiana de Souza Ruas, o IML informou que “havia água no estômago dele e que o coração estava inteirinho e que não tinha problema nenhum”, descartando qualquer problema cardíaco.

 

O último Atestado de Saúde Ocupacional (ASO) fornecido pelo Ogmo, em abril deste ano, aponta os prováveis riscos ocupacionais da atividade tais como esforço físico, postura inadequada, ruído, poeira orgânica, poeira (enxofre, barrilha, nitrato de amônia).

 

A morte de Rubens da Silva Ruas é a quinta só neste ano no Porto de Santos. A Delegacia Regional do Trabalho, órgão de caráter fiscalizador, decidiu fazer uma reunião no próximo dia 11 com os terminais onde ocorreram os acidentes fatais. Quer saber o que anda acontecendo... Afinal, os cinco auditores destacados não dão conta de atuar em toda a faixa portuária.

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