A história da Melina Alves é como de muitos estudantes brasileiros: veio para cidade grande e descobriu no trabalho uma maneira de transformar vidas

Há pessoas que descobrem sua vocação logo cedo e outras que precisam caminhar por várias trilhas até se encontrar. O trajeto é variável e pode se apresentar os mais inóspitos possíveis, como é o caso da Melina Alves. De Passos, interior de Minas Gerais, a jovem, que aprendeu com a mãe o ofício de cabeleireira aos 14 anos, se desafiou a descobrir o mundo por conta própria. Hoje, aos 37 anos, está à frente da DUXcoworkers, primeira empresa no país e pioneira no mundo a fazer das boas práticas de UX -User Experience, em inglês- e do coworking sua cultura de trabalho, desenvolvendo soluções centrada no usuário.

Melina Alves 2Melina Alves veio para cidade grande e descobriu no trabalho uma maneira de
transformar vidas. Crédito: Divulgação.

As tesouras, que deram vez ao trabalho mais imaginativo, foram essenciais para despertar na jovem a constante vontade de transformar a vida das pessoas por meio de um corte, coloração ou penteado diferente. A alegria demonstrada em cada mudança foi a válvula que a manteve fiel ao propósito, mesmo distante do salão. O resultado dessa força é inquestionável: nos últimos 5 anos, a empresa cresceu 298% em ordem de faturamento, sendo 45% oriundo do mercado financeiro e 15% de educação, healthcare e saúde; 40% dos projetos trouxeram soluções inovadoras e outras 35% foram criadas e saíram do papel.

Melina chegou aos 17 anos em São Paulo para estudar publicidade e, para ajudar nas despesas, conciliou com a profissão de cabeleireira aos fins de semana, quando ia visitar a família e atender a clientela que já havia conquistado. Mas os estudos de segunda a sexta na capital paulista e os fins de semana puxados no salão de beleza em Minas Gerais não estavam se harmonizando e foi preciso que a família se unisse para equilibrar as finanças e deixar a jovem mais folgada para se dedicar aos estudos.

Começou escrever para mercado publicitário, aceitou o primeiro estágio sem remuneração para aprender a fazer e, confiante em si, um tempo depois, ousou bater na porta de uma agência para pedir emprego. O universo conspira quando há de ser e eis que, as tesouras, que eram ferramentas essenciais para transformar e inovar a relação e a vida das pessoas a partir da estética, deram a vez a estética que combina negócios, tecnologia e ética social na decisão de projetos de inovação.

Encantada com o poder do ‘bom uso’ da tecnologia, Melina rapidamente se destacou na área digital da comunicação, dentro dos novos departamentos que estavam sendo criados onde ela trabalhava. Envolvida com o tema, desenvolveu na agência o primeiro app de realidade aumentada, que tinha por objetivo provar que a era digital influenciava -e muito- no mercado de comunicação. E foi assim, de certa forma até sem querer, que a jovem do interior de Minas começou, por conta própria a desbravar conceitos e possibilidades que o UX trazia.

O termo ainda é estranho para muitos ouvidos. E pudera! A sigla, iniciais de User Experience -em português Experiência do Usuário-, alinha o propósito com objetivos e resultados, mensurando a relação de determinado produto ou serviço com aquele que faz uso e tornando, por consequência, o processo de interação e proposta de valor da empresa mais eficiente. A sua fama é maior entre a galera de tecnologia, por ser mais fácil de associar com os produtos originados por eles, como aplicativos e plataformas online, mas, se bem observado, acontece o tempo todo, em todos os lugares e em qualquer época. Essa sutil percepção levou Melina ainda mais longe.

Fez todos os cursos possíveis da área, foi se aperfeiçoando, deu aula, tornou-se arquiteta da informação, estudou fora do país, construiu o nome no mercado a ponto tal que outras agências de publicidade começaram a procurá-la para desenvolver trabalhos pontuais. De job em job, Melina percebeu que o voo solo já era certeiro. Motivada pelo 1º Encontro de Coworking Global e envolvida naquela atmosfera, percebeu que unir UX com coworking otimizaria a compreensão sobre o assunto. Em 2010 fundou a DUXcoworkers.

Em 2013, foi selecionada uma das 10.000 mulheres empreendedoras do Brasil pelo programa 10,000 Women da Goldman Sachs, em parceria com a FGV. E hoje, quase dez anos após o início da jornada, o time liderado por ela e pelas sócias Poliana Alves e Mariana Moreno, com mais de 130 coworkers -profissionais de diferentes especializações e distribuídos em todo o mundo- atende desde grandes marcas, como Natura, Bradesco, Visa e General Motors, startups como a Ohne, Food Pass e Petmission e até mesmo empreendedores e influenciadores como a Helo Bacellar e a Tais Aline.

O sonho da tímida mineira de transformar vidas segue a todo vapor. Com o amadurecimento da empresa, os últimos meses foram dedicados a dar vida a novos projetos. A sede mudou para um espaço maior, capaz de atender mais coworkers, e iniciativas tomaram formas, como o UXcity, por exemplo, que tem por objetivo usar a cidade como ambiente de interação em ações que promovem a imersão das pessoas no ambiente urbano, estimulando encontros improváveis para debater o espaço público e cidades inteligentes, para extensão do lar. Já a parceria com a plataforma de crowdfunding My First IPO tem estimulado o crescimento de startups alinhadas com um propósito do bem, aquelas que buscam fazer a diferença.

Na visão da empreendedora, as soluções em UX tem por objetivo tornar o produto ou serviço tão simples de ser compreendido que o investimento em marketing pode até mesmo ser reduzido. A aposta é alta e para os próximos anos a perspectiva é aumentar o faturamento da empresa em 50% e dar vida a novos projetos que busquem trazer soluções para as cidades. Terreno tem. E é bem fértil e propício para quem tem vontade de mudar e fazer acontecer.

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