Tudo na vida do jovem Vitor Araújo é precoce. Iniciou sua vida profissional como office-boy em uma agência de navegação, localizada no centro de Santos, aos 15 anos. Aos 18, teve duas gratas surpresas, daquelas inesquecíveis. A primeira, quando recebeu o convite para ser visitador de navio. “Fiquei com receio. Eu queria, mas o meu inglês ainda não era tão bom. O meu ex-gerente me tranqüilizou e disse que se tivesse dúvida no momento de conversar com o comandante, era para eu telefonar”.

 

A outra novidade: Vitor iria ser papai de duas meninas, mas não de gêmeas! Ele explica: “Eu namorava e por um pequeno momento, me separei. Saí com outra menina que engravidou. Quando voltei para a minha namorada, ela também engravidou. Hoje tenho duas filhas uma de um ano e a outra de oito meses. Na época foi meio turbulento e acabei deixando os planos da faculdade para ano que vem. Vou fazer Gestão Portuária”.

 

O jovem precisou mesmo amadurecer. Convite aceito de imediato, Vitor começou o treinamento com os visitadores mais experientes. “Tive um apoio muito grande dos outros visitadores. Na parte de documentação não tive problemas. A dificuldade estava mais na prática, a visita em si. Eu ia acompanhando as visitas junto com os outros visitadores. Não importava se era de manhã ou à noite. Uma espécie de treinamento que todo visitador quando é novo passa. Eu ia aprendendo o que eles faziam e falavam com os comandantes”.

 

Segundo ele, o visitador tem um cargo muito importante. Qualquer problema a bordo, é de responsabilidade do visitador resolver. “Ele está ali tanto para ajudar o navio quanto auxiliar a agência. Tanto para prestar serviço para a empresa quanto para ajudar o comandante que, na maioria das vezes, está precisando de alguma coisa”. O serviço é cansativo, não somente pela quantidade de navios atendidos por dia, mas por estar sempre alerta e à disposição do comandante.

 

Chegara o dia da estréia. E, claro, só poderia ser inesquecível. “Meu primeiro dia foi terrível. Meu chefe pediu para eu ir fazer a saída de um navio, considerada bem mais fácil do que a entrada. Eu tremia que nem vara verde. Cheguei a bordo e o comandante italiano perguntou se eu estava bem. Disse a ele que era a minha primeira saída sozinho e ele disse para ficar calmo que iria me ajudar. Em vez de falar o horário 18h, ele soletrava os números para eu não me confundir. Quando acabou o serviço, ele me levou até a escada do navio e disse: Você entrou no caminho certo. É só você não ter pressa, ir devagar. Boa sorte. Nunca mais esqueci aquele comandante italiano, o Antonio Ferraiolo. Eu desci as escadas, o navio foi solto e ele, embora”.

 

Aos 19 anos e há quatro meses atendendo navios, Vitor já aprendeu algo além do que conferir e despachar documentos com o comandante: é preciso estar sempre com um sorriso aberto. “A gente não pode tratá-lo apenas como um comandante, ele também é ser humano, tem sentimento. Às vezes você chega a bordo e ele está meio triste. A gente pergunta se está tudo bem e aí eles contam que estão com problemas com a família, que o filho tá doente, que faz um ano que não vê a mulher. Eles são muito carentes”. E é assim que Vitor vai ganhando seu espaço.

 

“Tem um comandante grego que já me adotou como se fosse filho dele.  Todo porto que ele vai, fala de mim. Diz que vai me levar para a Grécia. Já o levei para conhecer o Gonzaga, em Santos, discotecas, restaurantes. Ele tem a idade do meu pai”.

 

A experiência ainda é curta, mas Vitor já tem histórias inusitadas para contar. Ele diz que cada navio tem um caso diferente. E lembra de um bastante divertido:

 

“Um dia havia levado um jornal italiano a bordo a pedido do comandante e, ao descer as escadas, um tripulante me parou e pediu um favor. Ele pediu para que eu escrevesse num pedaço de papel como ele queria que o cabelo dele fosse cortado. Dizia que ia voltar para casa e queria estar bonito para a mulher. Ele tinha medo que a cabeleireira não entendesse o seu inglês e passasse a máquina no seu cabelo. Aí, acabei escrevendo como ele queria o corte e ele, então, foi ao salão. Mais tarde, na saída, o encontrei e ele brincou mostrando no novo penteado. Demos muita risada”. 

 

Mas o novato também já passou por sustos. “Eu estava em casa dormindo quando o comandante me ligou dizendo que um tripulante tinha sofrido um acidente e que já havia ido para o hospital. Peguei o carro e fui de encontro para servir de intérprete, para ajudar os médicos na comunicação”.

 

Como funciona
Toda as manhãs os visitadores participam da reunião de atracação na Codesp para fazer o pré-agendamento dos navios de suas agências de navegação previstos para chegarem ao Porto de Santos.

 

Dentre as atribuições do visitador, está a verificação das condições da embarcação, tripulação e carga. É ele quem entrega às autoridades como Polícia Federal, Alfândega, Capitania dos Portos e Anvisa,  os documentos necessários para a liberação da atracação do navio.

O visitador chega antes da atracação do navio. No momento em que o navio está sendo amarrado, o visitador já está no cais. Ele é o primeiro a entrar na embarcação. A estiva só pode começar a operar depois que o visitador liberar o navio avisando a Polícia Federal. 
 

Liberada a documentação, o visitador fica todo o tempo em que a embarcação estiver atracada à disposição do comandante. O serviço só termina quando o navio deixa a barra.

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