Segundo investigação de entidade dos EUA, carros passam por vários países e usam técnicas de evasão de sanções

As limusines pretas blindadas aparecem em todos os desfiles do líder norte-coreano Kim Jong-Un. Transportadas em aviões de carga de Pyongyang para todos os lugares onde ele vai, elas já rodaram com ele pelas ruas de Cingapura, Hanói, no Vietnã, e Vladivostok, na Rússia, assim como nos encontros com os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia, na capital norte-coreana.

carro luxo coreiaCrédito: Divulgação | Kim Jong-Un na Rússia.

Os veículos são sempre dos mesmos modelos: Mercedes-Benz Maybach Pullman Guard e Maybach S62, que custam entre US$ 600 mil (R$ 1,9 milhão, na cotação do começo de agosto) e US$ 1,6 milhão (R$ 6,3 milhões). Elas burlam uma das sanções que a ONU fez em 2006 ao proibir empresas de exportarem bens de luxo para a Coreia do Norte.

As limusines chegam a Pyongyang por meio de um sistema complexo de logística que envolve portos, envios secretos por mar aberto e empresas obscuras que servem de fachada, segundo uma investigação feita pelo jornal em parceria com o Centro de Estudos de Defesa Avançada (Cads, na sigla em inglês), sediada em Washington.

De 2015 a 2017, 90 países enviaram produtos de luxo para a Coreia do Norte, de acordo com Cads. Além deles, muitos desses bens passam por territórios de nações alinhadas com a ONU ou com os Estados Unidos, como a China, a Rússia, o Japão e a Coreia do Sul. A entidade estadunidense afirma que o perigo dessa descoberta é que a Coreia do Norte usa técnicas similares para obter tecnologias de uso dual em seu programa de armas nucleares. Há uma desconfiança que a Coreia do Norte siga enriquecendo urânio para aumentar seu arsenal de 36 ogivas nucleares, segundo dados de instituições ocidentais.

"Quando se trata de evadir sanções, a Coreia do Norte depende de um grupo pequeno, mas sofisticado, de indivíduos de confiança que movem qualquer mercadoria que o Estado precise, sejam produtos de luxo ou componentes para mísseis", disse Neil Watts, especialista em operações no mar e ex-integrante do painel da ONU para o cumprimento das sanções impostas aos norte-coreanos.

O Japão, especialmente, é famoso por operar um vasto sistema de mercado de carros usados que circulam pelos oceanos em direção a países da África, da Ásia e da América do Sul. No Paraguai e na Bolívia, os chamados autos chutos são renegociados após adaptações amadoras da caixa de direção, por exemplo, enquanto no Brasil a prática é quase nula por causa das restrições impostas pelo Estado e pela fiscalização realizada pelas empresas privadas, como é feito no leilão Bradesco ou de outros bancos.

Segundo as investigações, uma das Mercedes usadas por Kim Jong-Un saiu da Holanda, em junho de 2018, em um navio de uma empresa chinesa, e passaram por boa parte da costa do país até atracarem em um porto da China em julho, onde ficaram até o fim de agosto. Depois, foram embarcadas em outro navio, que passou por Osaka, no Japão, e Busan, na Coreia do Sul, antes de chegar à fronteira norte-coreana.

A última parte do trajeto é a mais misteriosa: o Cads diz que os containers com as limusines foram transferidas para um navio com bandeira de Togo, que saiu de Busan em direção ao porto de Nahodka, no extremo Oriente russo. Os carros estavam em nome de uma empresa com registro nas Ilhas Marshall -- por acaso, dona da própria embarcação de Togo, e de uma outra com bandeira do Panamá. Pelos estudos da instituição estadunidense, o dono da empresa é um empresário russo chamado Danil Kazachuk.

Curiosamente, desde que saiu de Busan, na Coreia do Sul, o navio com a bandeira de Togo sumiu do mapa por 18 dias: o sistema de identificação automática deixou de transmitir sinais -- prática comum entre embarcações que pretendem evadir sanções -- até voltar ao porto de Busan carregado de carbono embarcado em Nahodka. Para o Cads, as limusines entraram na Coreia do Sul por meio de aviões saídos da Rússia.

Pin It
0
0
0
s2smodern
powered by social2s