Maurício Antônio Lopes, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Artigo publicado na edição do dia 10 de abril de 2016 do jornal Correio Braziliense.

Quem quer que use os serviços do Uber, esse aplicativo para telefone celular que mobiliza um serviço de transporte semelhante ao prestado pelos taxistas, relata a mesma coisa: é atendido com rapidez por um motorista muito atencioso em um automóvel novo, com água gelada, revistas e jornais do dia. Logo descobre ser possível conectar-se a outro aplicativo, que lhe permite escolher músicas a seu gosto durante o trajeto. A despesa é até 35% inferior à de um táxi tradicional, e a cobrança é online, sem manuseio de dinheiro ou cartões de crédito, com recibo enviado por e-mail.

O Uber é um dos frutos da nova globalização, definida não apenas pela troca de bens, serviços e capital entre países, mas também, e cada vez mais, por tudo que envolve fluxos de dados e informações digitais, como comércio eletrônico, computação em nuvem, videogames, redes sociais, dentre outros. Em estudo recente, o Instituto McKinsey Global, de Nova Iorque, concluiu que os fluxos transfronteiriços de bens, serviços, finanças, pessoas e dados, na última década, aumentaram o PIB global em cerca de 10% − em 2014 um valor equivalente a cerca de US$ 7,8 trilhões. Os fluxos de dados e informações representaram cerca de US$ 2,8 trilhões deste ganho. O que é surpreendente, pois os negócios de base digital só se tornaram possíveis há cerca de 15 anos, enquanto o comércio tradicional existe há séculos.

Uma nova globalização está nascendo com a transformação digital, fenômeno que produz profundas mudanças na forma como a tecnologia é criada, gerenciada e consumida. Se, há vinte anos, menos de 3% das pessoas tinham um telefone celular, hoje, mais de 65% dos habitantes do planeta têm um. Com a revolução digital, novas formas de trabalho e negócios estão surgindo, com impactos para trabalhadores, clientes, fornecedores e parceiros de todas as organizações, públicas ou privadas. A transformação digital expande oportunidades para que mais empresas, indivíduos e países participem da economia global. E muda o eixo dos negócios, já que empresas tradicionais, que, por exemplo, buscam vantagem competitiva em mão de obra abundante e barata, perderão espaço para aquelas que apostam em tecnologia e inovação.

Essa mudança pode acentuar assimetrias, já que a lógica da nova economia digital favorece francamente as economias desenvolvidas, cujas indústrias avançam rapidamente para a fronteira da nova globalização. Deficiências em infraestrutura, que impactam a conectividade com o mundo digital, e em educação, que limitam a capacidade criativa e inovadora e o acesso aos serviços e bens do mundo digital, são dificuldades críticas para a participação dos países em desenvolvimento na nova economia. Isso pode levar a rupturas e exclusão, exigindo dos governos novas formas de apoio e suporte aos excluídos digitais. Cerca de 3,2 bilhões de pessoas no mundo já acessam a internet, mas, em 2015, outros quatro bilhões de pessoas ainda permaneciam desconectados do mundo digital.

Esta rápida mudança tecnológica representa um imenso desafio para países como o Brasil, que precisarão, em curto espaço de tempo, redesenhar setores e negócios, da indústria pesada à agricultura e ao setor de serviços, para se alinharem ao novo cenário competitivo. Novos players, como o Uber, representam grande desafio para os negócios tradicionais, pois oferecem vantagens substanciais aos consumidores e ganham espaço com rapidez. Além disso, o impacto da transformação digital no mercado de trabalho precisará ser cuidadosamente considerado. Estudo recente concluiu que as tecnologias digitais em uso têm potencial para automatizar até 45% das tarefas realizadas pelas pessoas, o que, apenas nos EUA, equivaleria a uma economia anual de US$ 2 trilhões em salários.

É certo que o Brasil precisará ajustar diversos setores da sua economia, seja finanças, varejo, transporte, logística, etc, a esta nova realidade. Por exemplo, segmentos estratégicos da agricultura e da bioeconomia − economia sustentável baseada em recursos biológicos e processos limpos e renováveis − são espaços privilegiados para o país na nova globalização digital. Nesses setores essenciais, conquistar a fronteira tecnológica não é só um desafio comercial, mas um imperativo estratégico. Ao incorporar, por exemplo, práticas e processos de precisão, amplo uso de sensores e mecanismos sofisticados de previsão e resposta a variações de clima, a agricultura, que é um importante pilar da economia brasileira, poderá assegurar equilíbrio nas três vertentes da sustentabilidade – econômica, social e ambiental, o que é uma exigência dos consumidores em todo o mundo.

Mas é preciso compreender que a transformação digital não é apenas um destino a alcançar, mas uma jornada feita de mudanças contínuas em processos e modelos de negócios. Com a dinâmica alucinante que marcará o futuro digital, uma coisa é certa: o mundo experimentará uma nova globalização e aqueles que resistirem, presos aos paradigmas da era pré-digital, irão perecer ou viver pressionados por constantes "ventos e trovoadas".

 

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