Por João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical

Em 1964, logo depois do comício da Central do Brasil, em 13 de março, Carlos Lacerda, o grande agitador político da direita, o apelidou de “comício das lavadeiras”, porque, segundo ele, havia apenas tanques e trouxas (os tanques eram os do famoso e ineficiente “dispositivo militar” de Jango, já que o comício era bem perto do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, e os “trouxas” eram os janguistas).

Não encontrei um apelido equivalente para as manifestações maciças de ontem, que não foram comícios (até mesmo porque foram apolíticas e antipolíticas) e porque não houve o “bulício dos granadeiros”; as forças armadas continuam, constitucionalmente, no acostamento.

A classe média brasileira tradicional manifestou-se em peso e fez com que a crise política avançasse algumas casas para um desfecho provisório com alto grau de imprevisibilidade política.

Quero destacar duas coisas: a ausência das organizações sindicais dos trabalhadores e a não convocação para os atos das entidades empresariais que assinaram o “Compromisso pelo Desenvolvimento”.

O movimento sindical e sua base operária, que não participaram, como não haviam participado em 2013, continuam apreensivos e defrontam-se com uma recessão que lhes amedronta, mas não se deixam acaudilhar pela oposição ao governo, nem pelo governo. Assim como estão apreensivos, têm certeza que se procura desenhar uma alternativa escalafobética, tipo do casamento do porco com o cachorro, que, sob a coberta do moralismo lhes imporá ainda maiores restrições. Querem a retomada do desenvolvimento, até mesmo o combate à corrupção e a manutenção da democracia, sem golpes artificiais que desrespeitem seus votos.

Os empresários produtivistas (que podem ser aliados do movimento sindical) continuam perplexos e divididos, mas não participam das manobras politiqueiras e reacionárias da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e de outras entidades patronais pretensamente representativas de interesses empresariais, mas que não os encarnam efetivamente porque se submetem à jurolândia e aos rentistas.

Os próximos dias serão decisivos: ou se estabelece uma pauta ampla de crescimento, ao se enfrentar os desafios da recessão, ou ficará muito mais difícil – com um clima conturbado – garantir o desenvolvimento, as conquistas, o emprego e os salários.

Quem viver, verá!

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