Pedro Soethe é gerente do time técnico da Autodesk no Brasil

Os rios que cortam as cidades brasileiras já estavam ali muito antes da ocupação humana. Foram necessários milhares de anos para se formarem e se conformarem com o regime de chuvas e relevos, obtendo assim um nível de altura da água quase que constante. Antes era fácil verificar qual era o nível máximo e o nível mínimo, mas isto mudou conforme fomos impermeabilizando as áreas adjacentes aos córregos, e ocupando tanto as áreas mais altas quanto as regiões alagáveis, o que tem acelerado e intensificado os problemas e impactos das enchentes.

Existem várias maneiras para resolver estes problemas, dividimos aqui em duas formas, com as obras estruturais, que envolvem projetos que modificam o sistema fluvial (dos rios), como por exemplo os diques, sistemas de armazenamento e retardo de vazão, e as não estruturais, que visam minimizar os impactos das chuvas, como a regulamentação das áreas alagáveis, medidas de proteção nas edificações existentes e seguro enchente, por exemplo.

Um dado relevante levantado pela Faculdade de Economia da USP é que somente em São Paulo o prejuízo anual causado pelas enchentes chega em R$ 762 milhões de reais, um custo impactante para a cidade de São Paulo. Além do prejuízo, temos um alto valor também para obras de prevenção de enchentes, só em 2018 foram R$ 222 milhões de reais. Somados temos um custo anual de quase 1 bilhão reais de custos relacionados a enchentes. Ainda segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) em 2017/2018, São Paulo teve 433 pontos de alagamentos, mas, em 2009/2010, este número chegou perto de 1.500 pontos. Esta falsa impressão que está diminuindo é errada, pois na verdade, só mostra o quão cíclico e variável é o regime de chuvas.

Juntando os pontos que incluem a previsão do regime de chuvas, o manejo das áreas ocupadas, o custo elevado das obras e os prejuízos causados, sabemos que as soluções podem ser mais complexas. A boa notícia é que temos a tecnologia a nosso favor. Em situações onde utilizamos múltiplas variáveis, com dados interpretativos, como: relevo de influência do rio, área permeável, tipo de ocupação, nível de permeabilidade de cada área... Além de outras: qual é o regime de escoamento? Existem obras que impedem a vazão contínua? Como prever o impacto de uma determinada chuva em determinada época? Como agregar estes dados e fazer a interação entre eles? Estas são só algumas das perguntas que são feitas antes de passarmos às soluções.

Mas, e depois disso? Como testar estas soluções e saber se serão efetivas? E como é possível fazer a interação entre o primeiro item dos dados com essas informações? Hoje existem soluções tecnológicas, altamente acessíveis e amigáveis, que conseguem criar um ambiente 3D simulado da cidade e que interage com as diversas informações e situações. As soluções conseguem, em pouco tempo, levantar todas as informações de ocupação de solo, relevo, zoneamento, estruturas existentes, rios, córregos, etc. e alinhar isto tudo com os dados instalados no banco da prefeitura da região em questão. Em poucos minutos, é possível começar a estudar os prováveis pontos de alagamento, regiões de encosta com perigo, simular diversos regimes de chuvas, de uma forma visual e direta. Na próxima fase, já podemos testar opções de análise da rede de drenagem e verificar se ela irá mesmo funcionar. Isso vale tanto ações para as medidas estruturais como não-estruturais.

Agora imaginemos usar esta tecnologia para analisar os pontos de alagamento da cidade já devidamente sabidos pelo CGE? Com as simulações em cada um destes pontos mapeados conseguimos saber qual é a melhor ação a ser tomada em curto, médio e longo prazo. Isso maximiza o investimento e ainda diminui os prejuízos gerados.

Podemos afirmar que com o uso desse tipo de tecnologia seria possível diminuir em cerca de 20% a 30% o valor tanto de construção como o de prejuízos e impactos. Não precisa ser nenhum gênio para ver que este tipo de solução é extremamente necessário e útil para qualquer cidade do Brasil que sofre com problemas de enchentes. Ainda dá tempo de corrigir os problemas do nosso País.

 

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