As tradicionais empresas cerealistas, que pareciam estar fadadas ao desaparecimento em razão do poder de fogo dos grupos multinacionais que atuam no agronegócio, deram a volta por cima e neste ano já respondem por 40% da soja comercializada no Brasil. Historicamente, os cerealistas sempre atuaram apenas na compra de grãos para vendas às grandes tradings, mas hoje utilizam as mesmas estratégias dos concorrentes.

Os cerealistas perderam espaço depois que as multinacionais adquiriram empresas de fertilizantes e passaram a fornecer aos agricultores insumos, crédito e assistência técnica - um verdadeiro pacote tecnológico e financeiro para obter a fidelidade dos clientes. Além de exportar os grãos, as tradings também faziam o processamento da matéria-prima e exportação dos derivados.

Dentro dessa realidade, muitas empresas cerealistas quebraram, outras arrendaram suas estruturas para as multinacionais e os que continuaram no mercado possuíam uma pequena participação, restringindo a atuação à sua região de origem.

O cenário começou a mudar a favor das cerealistas em 2004, com a isenção de PIS/Cofins a essas empresas concedida pelo governo a partir de dezembro daquele ano. Segundo dados da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), as cerealistas movimentavam aproximadamente 25% da safra de soja em 2001, percentual que chega atualmente a 40% . 'Isso deu mais competitividade ao nosso setor, pois passamos a ter chance de concorrer com os grandes grupos', afirma Miguel Vaz Ribeiro, sócio da Fiagril, empresa cerealista do Mato Grosso.

A alteração na cobrança de impostos coincidiu com o início da crise vivida pelos produtores de grãos. O alto endividamento dos agricultores junto às tradings restringiu o acesso ao crédito, que os obrigou a buscar novas fontes de financiamento. O acesso a recursos novos foi encontrado nas empresas cerealistas, que ressurgiram fortes no mercado. 'Tínhamos a visão de funcionar apenas como intermediário da cadeia, mas mudamos essa posição e passamos a dar suporte técnico e apoio ao setor produtivo', diz Ivo Ilário Riedi, presidente do Grupo I.Riedi e da Acebra.

Na avaliação de Riedi, o setor ganhou força nos últimos anos, pois passou por uma profissionalização e ficou mais próximo do setor produtivo. Os cerealistas passaram a conceder aos agricultores assistência técnica, crédito e prazo de pagamento, além do fornecimento de insumos e prestação de serviços.

Prova que o setor cerealista está profissionalizado e crescendo é a Imcopa. O grupo emitiu US$ 100 milhões em bônus de três anos para se capitalizar, adquirir soja da safra 2006/07 e conceder crédito aos agricultores. O grupo, que processa 2,5 milhões de toneladas de soja por ano, deve fechar 2006 com receita de US$ 750 milhões. 'Trabalhamos com nichos de mercado e toda soja adquirida e processada é 100% não-transgênica', diz o presidente da empresa, Luiz Cavet.

Fonte: O Estado de S.Paulo - Alexandre Inácio - 15/12/06

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