As reservas internacionais do Banco Central chegaram na última sexta-feira a US$ 74,954 bilhões, pelo conceito de liquidez internacional, o mais alto volume já registrado na história. O recorde anterior havia sido observado em abril de 1998, quando as reservas internacionais somavam US$ 74,653 bilhões. O novo patamar de reservas dá novo fôlego ao debate entre analistas econômicos sobre até quando será conveniente para o BC acumular moeda estrangeira por meio de suas intervenções no mercado de câmbio.

Alguns economistas do mercado consideram que os benefícios do aumento das reservas são cada vez menores e, hoje, não são mais capazes de cobrir os custos envolvidos nessa operação. O economista Caio Megale, da Mauá Investimentos, lembra que os benefícios do aumento de reservas não são facilmente medidos. Eles incluem, cita, uma menor vulnerabilidade externa. Graças às altas reservas a economia está mais resistente a choques externos, o que permite que que a taxa básica hoje seja menor do que seria caso o BC não tivesse colocado em prática a política de aumento de reservas.

Em um momento em que os indicadores de solvência externa já atingiram os patamares mais favoráveis da história, porém, os ganhos adicionais com o acúmulo de reservas tendem a ser menores.

Há, de outro lado, o custo do aumento de reservas. Quando BC compra dólares em mercado, injeta reais na economia, que precisam ser em seguida enxugados por meio do aumento da dívida interna. O custo de manutenção das reservas é representado pela diferença entre o que o BC paga na sua dívida interna e o que recebe na aplicação de suas reservas internacionais no exterior.

"Olhando a questão sob esse aspecto, parece que o custo já é maior do que os benefícios", afirma Megale. Para ele, a única explicação para o BC seguir com sua estratégia de compra de dólares é uma tentativa de evitar uma excessiva volatilidade na taxa de câmbio. Ainda que não seja possível utilizar as intervenções para determinar a taxa de câmbio no longo prazo, explica, o BC tem poder de fogo para evitar uma maior apreciação do câmbio no curto prazo, que, em períodos mais longos, não se mostraria sustentável.

Em São Paulo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou o crescimento dos custos de administração das reservas são compensados pelo risco-país, que cede à medida que as reservas sobem. Assim, o governo paga menos juros em suas captações no exterior, o que cobre, segundo ele, o aumento de custos na gestão das reservas.

Não existe uma regra de ouro que determine qual é o volume ideal de reservas para um país. Também não faz muito sentido comparar o volume de reservas de agora com os valores registrados em abril de 1998. Naquele período, o BC acumulava reservas para defender um regime de câmbio fixo. Hoje, o regime de câmbio é flutuante.

Em 1998, o BC lançou mão de altos juros (a taxa básica chegou a ser elevada a 43% ao ano) e facilidade de ingresso de capitais de curto prazo para recompor as reservas internacionais. Hoje, as reservas são acumuladas devido principalmente aos altos saldos comerciais e aos investimentos diretos, embora a taxa de juros (em 14,25% ao ano) também seja uma força não desprezível por trás do fluxo de dólares ao país.

As comparações internacionais entre níveis de reservas também não são fáceis de serem feitas. Há vários países emergentes com mais reservas que o Brasil, como o México (US$ 83,6 bilhões), a Malásia (US$ 79 bilhões) e a Coréia do Sul (US$ 227 bilhões). Mas os custos para acumular reservas são mais elevados no Brasil do que nesses países, que têm juros internos menores.

Fonte: Valor Econômico e Valor Online
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