Na semana em que o Porto de Santos comemora 114 anos, o saite PortoGente pretende levar à luz a verdadeira história da fundação do maior Porto da América Latina. Mostrar quem foi o grande idealizador desse projeto revolucionário de construção do cais corrido e armazéns em substituição às antigas pontes e trapiches.

 

Francisco de Paula Ribeiro, natural de Pelotas, Rio Grande do Sul oriundo de uma família de mais 15 irmãos, filho de pai português e mãe brasileira, veio para Santos aos 17 anos no ano de 1868. O cenário da vila de Santos era deplorável. À mercê das epidemias que vitimavam milhares de habitantes todos os anos e da precariedade das condições do porto, o jovem gaúcho apostou nesta cidade para sobreviver. 

 

Naquela época pretendia vencer às más condições financeiras em que se encontrava a sua família. Chegou na cidade e foi trabalhar como varredor no armazém de um português. Não terminara os estudos, mas era de um perspicácia admirável, de impressionar até mesmo nos dias atuais.

 

Em relato, dizia: “A primeira coisa que me puseram nas mãos quando cheguei a Santos foi uma vassoura que manejei com orgulho e consciência, tão bem logo a deixei para assumir funções de maior responsabilidade”. Orgulhava-se em contar que sua primeira cama, quando começou a trabalhar em Santos, era um duro balcão de armazém e que como travesseiro tinha um selim do cavalo que o levava em jornadas de humilde serviço entre Santos e Cubatão.

 

Um homem conhecido pelo seu grande caráter e inteligência que vislumbrou em Santos a possibilidade de um projeto fantástico de porto e com ele o progresso do município. Uma criatura visionária que construiu a sua família com muita dedicação e trabalho. Chico de Paula casou-se em 15 de maio de 1880, no Rio de Janeiro, com Maria Isabel Coutinho que passou a chamar-se Maria Isabel Coutinho Ribeiro. Retornou a Santos e com ela teve 22 filhos, 19 deles nascidos na cidade santista e os últimos três no Rio de Janeiro. Eram 13 mulheres, oito homens e um filho(a) natimorto.

 

Conta em carta seu filho Noé Ribeiro: “... por causa das aperturas financeiras de Vovô, na última fase de sua vida, Papai não conseguiu completar os seus estudos secundários. Era, entretanto, extraordinariamente vivo, inteligente e esforçado e a nós todos, seus filhos, causava pasmo a cultura que modestamente nos exibia, corrigindo as nossas lições de português, francês e inglês, e ensinando-nos aritmética e álgebra. Falava e escrevia o nosso idioma primorosamente. Que coisa extraordinária ! Como teria ele conseguido se elevar tão alto, a não ser por seus próprios e ingentes esforços.”

Conheceu sua esposa na capital carioca, na casa de sua irmã, Guilhermina, casada com Eduardo Palassim Guinle, que viria a ser, além de cunhado, futuro sócio na Cia Docas de Santos. Cândido Gaffrée também testemunhou o seu casamento. Os gaúchos eram amigos.

 

Em 1885 chegou à diretoria da Associação Comercial de Santos, tornando-se, posteriormente, o terceiro presidente da entidade fundada em 1870.

 

Nos idos de 1888, Chico de Paula tendo a certeza de que a construção de um cais seria o futuro promissor de Santos, depois de muito tentar convencer os amigos Guinle e Gaffrée a entrar no negócio, escutou de Eduardo Guinle: “Chico, tu és um visionário, deixa-te destas manias e vem para o Rio onde tens um balcão a tua disposição”.

 

Foram muitos os convites e constantes apelos, até que Francisco de Paula Ribeiro decidiu ir, pessoalmente, ao Rio de Janeiro conversar com Eduardo e Cândido para finalmente ser formalizada a sociedade.

 

Na época da constituição do porto, Francisco de Paula Ribeiro estava com problemas financeiros, o que o impossibilitou a entrar com capital na sociedade. Foi firmada, então, uma relação Capital / Trabalho. A parte dele ficaria  dentro da fatia de Eduardo Guinle...

 

Bem, o segundo neto mais jovem dos 16 ainda vivos, Marcos Ferreira da Rosa, 67 anos, de semelhantes traços e conduta a de seu avô, conta que ele tinha o Porto de Santos como objetivo de vida. “O Francisco de Paula era um sonhador. Criar o Porto para ele era projeto de vida. Ele pensava: eles estão tomando conta do meu dinheiro e eu estou aqui fazendo o que eu quero e gosto".

 


À esquerda o neto de Chico de Paula, na mesma

posição clássica que seu avô.

 

Era necessário coragem e visão. Seu neto, reconhece: “claro, que é um tripé. Não adianta dizer que sem o dinheiro tudo isso iria acontecer. Mas, é muito importante que se faça justiça. Sem essa ponta do tripé (a do Chico) o negócio não funcionava. Tinha que ter um Gaffrée, um Guinle e um Ribeiro. Por outro lado, só com o Gaffrée e o Guinle no Rio de Janeiro, não saia nada. Na verdade, nenhum dos dois se proporia vir à Santos em 1880”, explica. 

 

Cada um tem o seu mérito, óbvio. Mas reconhecer o verdadeiro idealizador, mentor de todo o projeto do Porto de Santos, é fazer justiça. Em Santos, Chico de Paula dá o nome a um bairro da Zona Noroeste. Ínfima homenagem.

 

Em seu site dedicado ao avô (veja aqui), o neto Marcos conta que os amigos gaúchos não só lhe devem a idéia e, mais tarde, a organização da Companhia Docas de Santos, “como o grande empréstimo concedido pelo Banco do Brasil para a construção do cais. Foi Chico de Paula quem idealizou, estudou e realizou a grande operação financeira, se não me engano no valor de dezesseis mil contos de reis!”, relata.

 

Através do decreto 9.979, de 12 de julho de 1888, foi celebrado o contrato (assinado oito dias depois), pelo prazo de 39 anos (prorrogado para 90 anos em 7 de novembro de 1890). O documento foi assinado pela Princesa Isabel e referendado pelo ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, o paulista Antônio da Silva Prado.

 

Segundo o contrato, o grupo vencedor da concorrência ficava obrigado a, no prazo de seis meses a contar da assinatura do acordo, iniciar as obras do porto, principalmente com a construção de um pequeno trecho de cais e aterro, desde a Rua Brás Cubas até o extremo de uma velha ponte da São Paulo Railway, no bairro do Valongo.

 

Em 02 de fevereiro de 1892 foi entregue ao tráfego o primeiro trecho de cais, com 260 metros, compreendido entre a rua nova aberta junto ao Arsenal da Marinha e a Alfândega, com a atracação do navio inglês Nasmyth, de Liverpool.

 

Santos se tornava o primeiro porto organizado do país e, logo, Chico de Paula superintendente da Companhia Docas de Santos.

 

Nas próximas reportagens do saite PortoGente iremos contar um pouco mais sobre a trajetória dessa figura que verdadeiramente marcou a sua história na alma de Santos. Vamos mostrar registros inéditos de sua vida particular, como era o seu relacionamento com os filhos e o fim da sua sociedade com Cândido Gaffrée e Eduardo Guinle.

Crédito das fotos: www.novomilenio.inf.br

http://franciscodepaula.sites.uol.com.br

 

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