Foram 24 anos e nove meses de dedicação e empenho ao Porto de Santos. O portuário aposentado Manoel Motta, ou simplesmente o “Mottinha da ajustagem”, trabalhou na seção de precisão da Companhia Docas como ajustador de máquinas de escrever e relógio de ponto. Pelas suas mãos passavam mais de 300 equipamentos espalhados por todas as salas e armazéns da Docas.

 

Chegou à CDS aos 26 anos e já com 12 de carteira assinada. Era técnico em máquina de escrever e relógio de ponto, o que lhe rendeu a vaga na recém seção de precisão da cia. Motta lembra que largou o emprego na empresa de máquinas de escrever e foi tentar a sorte no porto. “O que ganhei em 11 dias de trabalho foi o dobro de todo mês no meu antigo emprego”, conta. Conseguiu a vaga definitiva por ter experiência em diversos modelos de máquinas e ainda ter o conhecimento de relógio de ponto. 
 

Ser ajustador de relógio lhe proporcionou histórias curiosas. Motta diz que era adorado por alguns trabalhadores. O motivo, um tanto conveniente... “No horário de verão o pessoal que saia a uma da manhã ficava esperando que nem doido a gente adiantar o relógio para ir embora mais rápido”, recorda.  

 

Foi realmente um portuário exemplar. Dominava a técnica, resolvia problemas rapidamente, era mesmo ágil. Se ele sabia datilografar? “Claro, mas só com quatro dedos. Era mais rápido do que muito engenheiro”. O que ele escrevia? O seu nome Manoel Motta, a palavra “inconstitucionalíssimamente” (quem já não brincou disso?) e “ilustríssimo sr. Diretor dos Correios e Telégrafos de Santos”. Motta se diverte ao lembrar.

 

O aposentado atuou no período em que o porto empregava 18 mil trabalhadores. “Era uma época gostosa de trabalhar, a gente fazia festas a toda hora. Tinha muita amizade, além de ganharmos dinheiro. Naquela época se você fosse portuário, conseguia crédito em qualquer lugar”, relembra.

 

Manoel Mota por 10 anos carregou a função de cipeiro e recebeu diversas homenagens pelos serviços prestados ao porto, uma delas especial: a de portuário do ano 2000, concedida pela Associação Brasileira as Entidades Portuárias, a ABEP.

 

Motta, aos 65 anos de vida, é uma figura alegre e cativante. Casado e pai de três filhos, reconhece que conseguiu construir sua família graças ao porto de Santos. Aposentado desde 91, há 14 anos atua na Associação de Participantes do Portus (APP). Enfrentou sete eleições e foi vice de quatro presidentes. Sente prazer em estar na APP, atualmente com três mil associados. Até hoje revê amigos de longa data e relembra “causos”.

 

Aliás, sua especialidade é divertir os amigos. Certa vez, conta, resolveu aprontar com o colega de seção, o relojoeiro Francisco Gomes da Silva Filho. Depois do almoço de sexta-feira, o amigo comprou um pacote de “torrone” para a esposa. Chegou ao escritório e o guardou em sua gaveta. Motta, muito vivo, ficou de olho no pacote e não teve dúvida. Na ausência do colega de trabalho, trocou dois torrones por dois pedaços de madeira pintados de branco. Francisco retornou do chamado e foi embora contente com o agrado da mulher.

 

Na segunda-feira seguinte, Motta estava sentado à mesa quando o amigo traído chega à seção dizendo que a esposa quase quebrara os dentes ao morder o falso torrone. “Ela logo adivinhou que só poderia ser armação do Mottinha”, diverte-se. 

 

A reportagem de Manoel Motta retrata a felicidade conquistada pelos antigos portuários ao terem passado pelo Porto de Santos e construído parte da história. No Dia do Portuário, 28 de janeiro, fica registrada a homenagem do PortoGente àqueles que fazem do porto a sua razão de vida. Parabéns a todos os dignos trabalhadores que ainda fazem desse porto o orgulho de muita gente.

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