A vida conjugal de Virgílio Pedro Rodrigues e Nathalia Paura Pedro ainda é comum ser vista entre casais acima de 50 anos de idade. Ele, um incansável trabalhador, provedor do lar. Ela, uma mulher prendada com os afazeres de casa. Ele, um marido ciumento. Ela, uma esposa compreensiva. E assim por diante...

 

Ambos se conheceram em Santos ainda jovens, aos 16 anos, e depois de um ano e oito meses, já estavam casados. Precisaram de muita adaptação para manter um casamento de 47 anos. Claro, discussões, sentimentos negativos permearam o relacionamento. Apesar de tudo, fazer o marido feliz, sempre foi o objetivo de Nathalia. Tiveram três filhos: Gino, Gerson e Gisela e três netos. Compraram a casa própria com muito esforço. Aposentaram-se, e mesmo depois de uma cirurgia no coração, Virgílio continuou trabalhando no Porto de Santos.  

 

Saía de casa às seis da manhã e de táxi seguia para o cais. Os dias eram sempre iguais, de muito trabalho. Aos finais de semana, a casa ficava cheia de amigos, familiares. Virgílio, um português bem humorado, gostava de contar histórias. Era divertido e de bom coração. Sua esposa Nathalia conta que sempre ficava alguém na mesa para ouvir as suas piadas.

 

Ele não dispensava um jogo de futebol e uma cervejinha com os amigos. No último verão, seus netos baianos passaram dois meses em sua casa. Nathalia lembra da alegria em tê-los por perto. "Eles eram tão apegados a mim que dormiam conosco em nosso quarto", conta.

 

Fevereiro chegava e era a hora dos netos voltarem para casa. A avó resolveu acompanhá-los no caminho de volta à Bahia, onde ficaria até o dia 26 de fevereiro. Virgílio pediu para que Nathalia não fosse, pois não queria ficar sozinho. Ela recusou e pediu, então, para que uma sobrinha ficasse com ele neste período. Pensava ser mais um pedido entre tantos que ele fazia a ela.

 

Durante a viagem, pressentiu que a saúde dele não estava boa e resolveu antecipar a passagem para o dia 19. Contrariando a vontade do marido, um de seus filhos foi buscá-la no aeroporto. Ao chegar em casa sentiu o marido muito nervoso. Discutiram e ela foi dormir magoada com ele. No dia seguinte, ele acordou e como de costume, foi ler o jornal, andar na praia, falar com os amigos no bar. Naquele domingo, Nathalia não quis preparar o almoço habitual pedindo a ele para que fosse comprar o almoço fora. Ele concordou. Tudo aparentemente normal. Ele assistiu ao jogo de futebol... era palmeirense fanático. Nathalia quis encontrar com a irmã no bingo. Perguntou a ele se não se incomodaria de ficar sozinho e foi ao encontro da irmã. Quando, de repente, recebeu um telefonema dele.

 

Extremamente nervoso, aos gritos perguntou a ela se iria ficar o tempo todo no bingo. Ela desligou, muda, diante de tanta exaltação. Ao chegar na sua casa, o encontrou tranqüilo.  Algo o havia perturbado, mas ela não poderia desconfiar do que seria.

 

A semana começara e, dessa vez, ele não fora almoçar em casa. Chegou do porto às sete da noite, jantaram e foram dormir. Na terça-feira, dia 22 de fevereiro, foi trabalhar normalmente quando ocorreu um acidente e ele faleceu.

 

Naquela manhã, Nathalia sentiu a presença dele ao ouvir o barulho da porta de sua casa. Foi verificar, mas nada encontrou. Já era um aviso. "Depois mais tarde eu senti o táxi chegando, corri pra olhar e não encontrei ninguém", conta.

 

Algum tempo depois ela recebeu um telefonema perguntando se era verdade que seu marido Virgílio havia sofrido um acidente no porto. Desesperada, imediatamente pegou o carro e logo chegou ao hospital. Só pensava que poderia ser um engano, que poderia ser outro Virgílio. Não era.

 

Hoje, depois de sete meses de sua morte, Nathalia aos 66 anos, sente a presença dele em tudo o que faz, principalmente nos momentos difíceis. Ameniza a saudade olhando e conversando com os retratos dele espalhados pela casa. Recordações de um tempo em que apesar das desavenças, eram um casal unido e feliz.

 

Ao relembrar do seu marido Virgílio, conta que ele sabia há um ano que havia chegado a hora. "Ele começou a pressentir que estava sendo chamado, de que teria de ir embora. Sempre me falava, mas eu não queria aceitar. Ficava deprimida", conta. 

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