“A manobra governista é grotesca: visa forçar a Vale a desviar o minério de ferro que extrai no Pará e exporta para todo o mundo para a produção de aço em uma siderúrgica a ser construída naquele estado. Trata-se de queda de braço que vem desde os tempos de Lula e que Dilma Rousseff manteve – e foi uma das razões da substituição, ontem oficializada, de Roger Agnelli na presidência da companhia(…) O problema é que produzir aço hoje é mau negócio, ao qual nenhuma empresa se lançaria a bel prazer. Há excedente na produção mundial – de 550 milhões de toneladas – a ponto de, no ano passado, as próprias siderúrgicas existentes no país terem desativado nove altos-fornos para evitar a superabundância. Será que o governo entende melhor do negócio do que elas?”
É “mau negócio”, é? Então leia o que saiu ontem, no Estadão:
“A siderúrgica sul-coreana Posco elevou os preços de seus principais produtos entre 16% e 18%, repassando assim para seus clientes os custos mais elevados de matérias-primas como minério de ferro e carvão de coque, informou o jornal japonês Nikkei em sua edição da manhã desta segunda-feira.(…)Sua concorrente Hyundai Steel também tem planos de elevar os preços. Essa tendência de alta pode causar impacto sobre companhias japonesas e chinesas com clientes na Ásia.”
Reparem: em apenas um mês a “verdade absoluta” se desmancha.
Porque ferro e aço não podem ser tratados com a “alma de vendedor de banana na feira” que pretende o tucanato e a “bem pensante” elite brasileira. Não é apenas o “ver como está o mercado” e mandar cortar todos os cachos que puder, correndo, quando o preço sobe.
Porque de semelhante com a banana, o minério de ferro só tem o fato de só dar uma vez, e sem possibilidades de renovar o “bananal”.
E a produção de aço é algo que exige uma maturação bem mais longa que a da banana verde, e não tem carbureto que dê jeito de apressar.
O resultado é que a maré vira e, aí, um país com seu setor produtivo interno “pendurado” no pincel, quando o preço do aço volta a subir.
Não é preciso mais que outra notícia para que a gente entenda, a que sai em O Globo, hoje:
“Após conceder descontos de até 30% no preço do aço desde agosto passado, as siderúrgicas brasileiras viraram o jogo em abril e conseguiram reajustar seus produtos entre 6% e 10%(…) Grandes clientes com maior poder de barganha – como montadoras e fabricantes de eletrodomésticos – ainda tentam resistir à alta, mas o fato é que a redução das importações de aço em 2011 está abrindo espaço para os produtores nacionais repassarem aumentos de matérias-primas que vinham absorvendo até agora. Com os repasses, quem sai perdendo é o consumidor, que tende a desembolsar mais dinheiro na hora de comprar itens derivados de aço, como carros, geladeiras e fogões.”
Bom, deu pra ver onde está o que Agnelli e o tucanato midiático chamavam de “mau negócio”, não é? E não é só no mercado interno, não, é também na exportação. O volume total de aço brasileiro exportado em março foi de 871,4 mil toneladas e de 2,8 milhões de toneladas no primeiro trimestre, altas de 24,8 e de 39,2 por cento. E a receita das exportações cresceu 200%, em dólares.
Mas numa coisa eles estão certos, embora preguem o errado. É quando dizem que a este “mau negócio” de produzir aço, “nenhuma empresa se lançaria a bel prazer”.
Verdade. Por isso mesmo o Estado tem de induzi-las. Porque é compreensível que a empresa só pense no caixa do final do mês, enquanto um país tem de pensar em seus interesses estratégicos, de médio e longo prazos. Tem de olhar o seu desenvolvimento e sua capacidade de dar a seus cidadãos um destino sustentável.