Editorial | Coluna Dia a Dia
"O império, há muito tempo dividido, precisa ser reunificado; há muito tempo unido, precisa ser dividido. Sempre foi assim" (Romance dos Três Reinos, Luo Guanzhong, China).
A pergunta do título tem mais a ver com a complicada geopolítica mundial deste momento, que com a boa vontade de embarcadores e armadores. E representa um desafio, também: será que conseguiremos avançar, perante as dificuldades interpostas pelos que lucram com o atraso mundial?
Veja mais: World Shipping Council flies the flag for ocean shipping at UN launch of Decade of Sustainable Transport – WSC, 10/12/2025
Estamos nos primeiros dias da Década do Transporte Sustentável das Nações Unidas e a quase totalidade do noticiário internacional aponta para cenários em que essa ideia é excluída: a nova realidade (não-multilateral) é uma redivisão do mundo, numa nova “guerra fria” tripolar em que as Américas são o quintal dos EUA, a Europa o quintal da Rússia e Ásia/África o quintal da China, falando sem rodeios ou máscaras de hipocrisia.
Não é uma questão de quem está no poder em cada capital, Washington, Moscou ou Pequim. As figuras que aparecem no destaque só estão ali porque foram postas nessa posição por interesses econômicos enormes. Os interesses políticos são mais de natureza retórica, tanto quanto os discursos de fachada que as potências ostenta(va)m, e que estão sendo abandonados pois os novos reis não precisam nem se dar ao trabalho de justificar seus atos. Nada vai acontecer mesmo por décadas, como foi na “guerra fria”.
Veja mais: A engenharia e o futuro do mundo - Portogente, 22/11/2017
Sendo realistas, é com este cenário que trabalharemos nesta década: o petróleo, mesmo fóssil, dita as regras do jogo que as velhas economias seguem, e elas tentarão pela força o que não mais conseguem pelo diálogo: fazer com que o mundo volte a queimar petróleo e carvão, rechaçando os novos conceitos de sustentabilidade – que ainda não reuniram forças suficientes para se imporem (mesmo com as tormentas climáticas batendo à porta em todos os quadrantes do planeta).
O caminho é necessário e sem volta, o mundo está precisando evitar o abismo climático, mas terá de enfrentar bastiões do Atraso, da Velha Ordem que lucra demais com o ‘status quo’ e não quer arriscar mudanças nas regras, sabendo que no novo jogo já chegariam bem atrasadas, precisando reaprender como jogar e continuar lucrando neste novo tabuleiro.
Mudança é sempre uma ameaça para quem está ganhando, é difícil entender que “em time que está ganhando se mexe, sim, até para ganhar muito mais”. E não arriscar perder o ‘jogo’ para times que chegam com novas táticas, desenhadas para justamente derrotar velhos estrategistas.
Veja mais: Portos como elos de rede global de sustentabilidade – Portogente, 16/9/2024
A História está cheia de exemplos de como formações militares ‘invencíveis’ foram fragorosamente derrotadas em batalhas memoráveis, acelerando o fim dos que se acreditavam amparados pelo poder quase absoluto de suas forças. Bastou uma nova ideia ser colocada em prática, como a pólvora ou a forma de surpreender pelos flancos exércitos compactos. Depois da primeira vitória, outros copiaram a ideia; o jogo ficou rápido e já não havia tempo ou espaço para réplicas no campo de batalha.
Assim caíram diversos impérios do passado. E, reduzindo a escala, o mesmo acontece com empresas gigantes e centenárias que se tornaram paquidérmicas, não se reinventaram ou se adaptaram a novos momentos e em poucas décadas foram reduzidas a pó... por um punhado de bits. Vale o alerta nesta década voltada aos transportes marítimos: quais eram os grandes armadores do final do século XX? Os grandes portos? Quantos ainda estão em atividade?
Fica a reflexão. Mudar custa, mas não mudar custa muito mais. Embarcadores sabem que seus clientes querem preço menor, mas também querem um mundo melhor para viverem e manterem seus negócios... inclusive ‘aparecendo bem na foto’ do balanço social: só o contábil já não define a saúde de uma empresa.
E a palavra ‘sustentabilidade’ tem em si o conceito de que é possível conciliar custos com mudanças, até porque as mudanças trazem mais competitividade no mercado e essa segurança de continuidade reduz custos (não só os do prêmio do seguro!).
Veja mais: Romance dos Três Reinos - Wikipédia
Enquanto potências mundiais passam os tratores sobre toda a legislação e jurisprudência firmada desde a Segunda Guerra Mundial, efeitos preocupantes surgem: o Ártico está degelando e abrindo passagens ao Norte das Américas e da Eurásia – por isso Trump (‘os EUA’) quer anexar a Groenlândia e até o Canadá, para não ser surpreendido por belonaves nos mares boreais e ter ali uma futura rota comercial mais rápida e econômica.
A Rússia quer espaços de manobra ao sul de seu território, daí a invasão da Ucrânia (vai parar por aí?). Todos estão atentos ao que se passa ao redor da rota do petróleo e do canal de Suez, vital para os transportes marítimos internacionais. E a China assume o controle do Canal do Panamá, quer também controlar Taiwan e garantir sua nova Rota da Seda pelas Américas, avançando no ‘quintal americano’.
Para o bem e para o mal, não ‘estamos’ no alvo: nós ‘somos’ o novo alvo de disputas. Em terra, no ar... e no mar.
Como num jogo oriental, três potências dividem o planeta e disputam seus quinhões
Imagem: reprodução/’O Jogo dos Reis’ - China








