Na contramão de pressões estadunidenses, Estados do nordeste firmam acordos comerciais com empresas chinesas de tecnologia

Produtos chineses não são novidade na economia nacional, mas as recentes parcerias firmadas entre os Estados do nordeste e o distante país asiático, sobretudo no setor tecnológico, estabelecidas sem o intermédio do Governo Federal, têm sido motivo de grandes polêmicas.

A medida, estabelecida por meio de parcerias cuja atuação cobre desde investimentos na Bahia ao fornecimento de tecnologias de reconhecimento facial, vai na contramão dos interesses do presidente Jair Bolsonaro, uma vez que terminam por reduzir a área de atuação dos Estados Unidos em território nacional.

Segundo Rui Costa (PT), governador da Bahia, a ação conjunta do chamado Consórcio Nordeste não se contrapõe a Brasília.

Nas palavras do parlamentar, a movimentação dos estados “é uma forma de fazer mais e melhor pelas pessoas”.

Consórcio Nordeste

Firmada em Julho de 2019, a parceria jurídica entre os nove estados da região tem como principais objetivos poupar recursos nas compras de materiais e facilitar o desenvolvimento e execução de políticas públicas que envolvam mais de um estado do grupo.

Chamada de Consórcio Nordeste, um dos principais focos da parceria é o lançamento do programa “Nordeste Conectado”, uma parceria público-privada que visa instalar milhares de quilômetros de fibra óptica na região.

O programa tem chamado a atenção de empresas chinesas, como a Huawei e a ZTE.

De acordo com o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), as referidas empresas “estão muito interessadas no programa”.

A Bahia beneficia-se especialmente da movimentação do consórcio.

Em Setembro deste ano, o governador do Estado reuniu-se com investidores chineses interessados em participar no projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica.

“A tendência é de que as relações comerciais com a China sejam estreitadas com o Consórcio”, comemora Rui.

A ponte Salvador-Itaparica terá 12,3 quilômetros de extensão e será a 23ª maior do mundo.

Motivos de tensão

A aproximação entre o Consórcio Nordeste e a China tem sido razão para muitos debates, sobretudo no que diz respeito à atuação dos EUA na economia brasileira.

Sob acusação de representarem ameaça à segurança dos Estados Unidos da América, as chinesas ZTE e Huawei, entre outras, vêm sofrendo algum tipo de embargo por parte da grande potência chefiada por Donald Trump.

Além de maior produtora mundial de equipamentos de telecomunicação, a empresa Huawei detém o maior número de patentes da tecnologia 5G, fundamental para o avanço da telefonia móvel e para a consequente evolução industrial.

Por isso, a gigante chinesa está no centro dos conflito entre China e Estados Unidos.

De acordo com o ministro-conselheiro da embaixada da China no Brasil, Qu Yuhu, o país tem 37% do total das patentes na área de tecnologia 5G e a Huawei conseguiu fechar mais contratos de 5G que as suas concorrentes.

O Brasil tem papel decisivo neste cenário. Porém, segundo o economista Ronaldo Fiani, o país não se beneficia tanto quanto poderia desse fato.

De acordo com o especialista, isso se deve à ausência de uma estratégia de desenvolvimento.

“O Brasil encontra-se no meio de um confronto geopolítico global (...), a falta de percepção dessa dimensão geopolítica, juntamente com uma política ingênua e simplista de alinhamento automático com americanos ou chineses compromete gravemente a defesa dos interesses do País”, diz.

Esta realidade, contudo, tem dado sinais de mudança.

Ao longo deste ano, governadores de 4 estados nordestinos, assim como 2 vice-governadores e um grande número de secretários visitaram o país asiático. Em contrapartida, diversas comitivas chinesas foram enviadas para os estados que compõem o Consórcio Nordeste.

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