De forma despretensiosa, o engenheiro agrônomo e pesquisador de assuntos ferroviários Marcello Tálamo colocou na Internet, em maio de 2000, três páginas a respeito da história das estradas de ferro no Brasil. Quase sete anos depois, o saite Ferrovias & História acumula uma quantidade infindável de informações, páginas e, especialmente, fotografias, tornando-se referência para pesquisas e para quem quer se aprofundar a respeito do tema.

O endereço eletrônico não se atém às estradas de ferro de maior importância e, também, mais conhecidas, como a Companhia Paulista ou a Sorocabana. Tálamo busca resgatar, com muitas imagens e detalhes, um pouco da história de ferrovias que nem sempre fazem parte do conhecimento do público em geral - muitas delas desaparecidas há décadas -, mas que foram fundamentais para o desenvolvimento e o progresso de regiões inexploradas antes de suas criações. Essas estradas de ferro abasteceram com mercadorias e passageiros as grandes e poderosas linhas-tronco das principais ferrovias que cortavam o país.

 

O pesquisador conta que produz páginas diariamente. Embora realize sozinho esse trabalho de veiculação de imagens e informações, Tálamo afirma que recebe colaborações de amigos e interessados que conhece pessoalmente ou via grupos de discussão na Internet. Um dos principais colaboradores do saite é José Pascon, personagem já retratado por PortoGente como um “apaixonado pela vida ferroviária”.

 

Com um acervo riquíssimo, composto por muitas fotografias enviadas por colaboradores estrangeiros e, por isso, raríssimas de achar em qualquer lugar do Brasil, Tálamo resolveu compartilhar grande parte de sua coleção via Internet. “Quando você tem todo esse tipo de material há duas opções: montar um baú e guardar somente para você ou dividi-lo com o maior número de pessoas possível”.

 

Ele optou pela segunda opção e o meio mais eficaz para isso, nos dias atuais, é a Internet. Para isso, a divulgação do endereço eletrônico é simples. Com poucos cliques, é possível levar ao conhecimento de dezenas ou centenas de pessoas a existência do saite. Uma realidade muito distante das primeiras décadas do século XX, quando a única alternativa para compartilhar conhecimento e informações era escrever e publicar um livro. Opção, por sinal, trabalhosa e de alto custo financeiro.

 

Tálamo destaca que as ferrovias tiveram enorme importância para o desenvolvimento da cidade de Santos. “Em meados de 1850, Santos era muito isolada de São Paulo. Embora já existisse o começo do Porto, era muito caro movimentar mercadorias, podendo ocorrer vários imprevistos já que não havia um meio de transporte adequado para transportá-las. Demorava de quatro a cinco meses para uma carga sair de Santos e chegar ao interior”. Com os investimentos da família Guinle no cais santista e dos ingleses na construção de estradas de ferro, o panorama foi completamente modificado. “A São Paulo Railway levava as mercadorias direto do cais até o interior, passando pela Capital. A economia passou por uma profunda transformação, todo mundo queria exportar por Santos. De meses, foi possível passar a negociar em questão de horas”.

 

Se antes, as cidades marítimas eram as mais industrializadas, com a possibilidade de movimentar grandes peças e equipamentos via estradas de ferro o processo de desenvolvimento chegou ao interior. Somente em meados do século XX, conforme Tálamo, os investimentos migraram das ferrovias para as rodovias. “Isso era óbvio. O caminhão não depende de hora exata de saída ou fica imediatamente impedido de circular por queda de barreiras. Por isso a mudança no investimento”. Com a excessiva utilização da malha rodoviária e os conseqüentes gargalos logísticos, a situação começou a inverter-se novamente. O marco dessa alteração foi a privatização das ferrovias brasileiras, há dez anos.

 

Essa e outras transformações ocorridas devido à implantação de estradas de ferro no Brasil, e mais especificamente na região de Santos, estão presentes no saite mantido por Tálamo. De acordo com o pesquisador, a literatura sobre o assunto é escassa e há pouca informação disponível. “Por isso, o jeito é procurar e procurar”. Formado em Engenharia Agronôma, não pára nem mesmo nas férias. Vai a locais como a Codesp, Bolsa do Café e também a sebos buscar variadas informações para veicular em sua página. “Já cheguei a comprar livros na França, no famoso Mercado das Pulgas. Lá encontrei muitos livros e cartões-postais a respeito de ferrovias e portos do Brasil”.


Imagens
As fotografias mais antigas disponibilizadas no website datam do final do século XIX. Entre elas há imagens como a do extinto “Cometinha” na subida da Serra do Mar e, também, do primeiro equipamento da Sorocabana a entrar no cais de Santos. Tálamo veicula, também, fotografias mais recentes, como o desembarque e manobras através das linhas da Portofer, das locomotivas C-30-7 americanas compradas para reaparelhamento da frota da Brasil Ferrovias, em 2004.

 

Para o engenheiro agrônomo, o porto é o elemento essencial em todo o processo logístico, embora sua pesquisa esteja mais voltada para as ferrovias. “O cais é responsável por todo o desenvolvimento da região. Sem o Porto, Santos e até mesmo Guarujá não seriam nada. E mesmo o Pólo Industrial de Cubatão só pôde ser construído por causa da movimentação portuária e da movimentação de peças e maquinários das estradas de ferro da região”. Nascido e apaixonado por Santos, embora tenha estabelecido residência em São Paulo, Tálamo enfatiza a versatilidade da cidade litorânea. “Santos é a única cidade no mundo em que se pode ver, em um mesmo local, navios, trens, caminhões, bondes e trólebus. Os moradores da Cidade são privilegiados”.

 

Para dinamizar e destacar alguns “tesouros” de sua coleção e do acervo de seus colaboradores, Tálamo mantém seções como a “Foto do mês”. Uma imagem é destaque do saite mensalmente desde sua criação, em 2000. A Companhia Docas de Santos e a ferrovia da Citty no Rio Pilões são foco de outras seções de importante valor histórico, detalhadas com uma riqueza de informações poucas vezes vista anteriormente. E as fotografias, sim, estão presentes em todas as seções, já que Tálamo considera “fundamental” o atributo visual.

 

Modelismo

Além de manter o saite Ferrovias & História, Tálamo também é adepto do modelismo. Com base nas fotografias que coleciona, ele reproduz locomotivas, vagões e ferrovias brasileiras. Com algumas dessas peças, ele decora espaços onde mora ou trabalha; com outras, que não são estáticas, consegue reproduzir as manobras realizadas nas estradas de ferro.

 

Atividades diferenciadas não são o limite para Marcello Tálamo. O pesquisador está sempre disposto a conversar sobre ferrovias e portos e a compartilhar informações. É gente apaixonada pelo assunto, que pesquisa e quem mantém um saite, acima de tudo, porque gosta. Personagem e seu valioso acervo que não poderiam deixar de ser destacados em PortoGente.

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