Um pintor criativo e de grande sensibilidade, Antônio José Scala ou, como é mais conhecido, TomZé, já retratou em seus quadros diversos temas que permearam toda a sua vida. Depois de pintar cenários do campo, cirandas, colheitas e paisagens tropicais, TomZé resolveu investir em Santos, cidade na qual mora há cerca de 40 anos. As pinceladas não podiam ser mais certeiras ao escolher um setor marcante da Cidade: o Porto. A escolha não foi aleatória. "O Porto é o que há de mais importante em Santos. Além do mais, é o principal de toda a América Latina".

 

Nascido em Poços de Caldas (MG), TomZé não se dedicou à pintura por toda a vida. Até 1975, ele dava suas pinceladas na Secretaria de Obras da Prefeitura de Cubatão. No entanto, problemas cardíacos fizeram com que ele tivesse que operar do coração. Afastado das atividades de trabalho por seis meses, o médico de TomZé Scala recomendou a prática de alguma arte manual, como passatempo para evitar o ócio dos dias de recuperação.

 

A escolha pela pintura foi aleatória. "Até então eu só tinha feito trabalho manual no colégioR2", enfatiza o artista. TomZé conta que o primeiro passo foi comprar o material e mergulhar na atividade. Desde o início a técnica escolhida foi a naif. O termo significa "ingênuo" em francês. No Brasil, costuma-se usar a palavra "primitivo". Os pintores naif são considerados os "anarquistas do pincel". As principais características são o uso de cores vivas, a imaginação e a grande quantidade de detalhes.

 

TomZé lembra que seus quadros logo fizeram sucesso entre amigos e familiares. "Alguns deles começaram até a comprar quadros para presentear os colegas". Mas, de acordo com ele, uma das grandes honras no início da carreira aconteceu em uma visita internacional. "Em 1980 eu ainda trabalhava na Prefeitura de Cubatão. Na época, uma jornalista inglesa veio ao Município para fazer uma reportagem sobre encefalia (por causa das altas taxas de poluição, a quantidade de crianças que nasciam sem cérebro em Cubatão era excessiva). Ela encantou-se com dois quadros expostos na minha sala e perguntou quem tinha pintado. Eu disse que eu mesmo era o autor e ela quis comprar de qualquer jeito. Fiquei de pensar. Na semana seguinte, ela retornou com um jornalista americano para completar sua reportagem. Cada um deles levou um dos quadros".

 

TomZé perdeu o emprego em 1982. Sem opções, resolveu dedicar-se à pintura como modo de ganhar dinheiro. A partir daí, o artista coleciona uma infinidade de exposições - coletivas e individuais - levando a sua arte naif para todos os cantos do país e, também, pelo mundo. "A primeira exposição aconteceu no final de 82, na Galeria Jacques Ardie, em São Paulo. Logo depois, também participei de um evento na Urca, no Rio de Janeiro, e não parei mais".

 

Posteriormente, surgiram muitas outras mostras e exposições. A primeira individual de destaque foi realizada em 1985, na Associação Cristã de Jovens, em Buenos Aires, na Argentina. Em 1987, participou da III Mostra de Arte Contemporânea Brasileira - Unicef, no Macksoud Plaza, em São Paulo. A carreira culminou em muitas outras exposições coletivas de renome, como em mostras na Suíça e na Eslováquia e até no Ano do Brasil na França (2005), mais especificamente no Museu internacional de Arte Naif, em Nice (veja aqui pinturas naif de brasileiros expostas na França).

 

Neste mês, as obras de TomZé podem ser conferidas pelos santistas. Seus principais e mais criativos quadros sobre a Cidade e sobre o Porto de Santos estão à mostra na Pinacoteca Benedicto Calixto. É a primeira exposição do artista no local. O evento celebra 30 anos de pintura naif de TomZé e estará aberto ao público, gratuitamente, até o dia 25 de junho. Além do Porto de Santos, quem for à Pinacoteca poderá ver também quadros de outras fases da carreira de TomZé e, ainda, obras que retratam o Porto do Rio de Janeiro.

Veja vídeo em que TomZé Scala fala sobre os temas das obras expostas.

 

Temas

O interiorano TomZé começou pintando plantações. "Era inevitável, já que eu nasci no campo". Depois, brotaram obras com uma grande diversidade de temas como colheita de flores e de café, pipas, cirandas e até futebol. "No início da década de 90 comecei a pintar paisagens tropicais, pois fui convidado a expor no Rio Eco-92".

 

Foi há cerca de cinco anos que o Porto de Santos "picou" a veia artística de TomZé e fez que ele retratasse navios, contêineres e armazéns de forma criativa. "Uma amiga queria um quadro que mostrasse o porto. Eu assumi que não sabia como pintar a área portuária e fui ver de perto como era esse mundo".

 

Nos quadros de TomZé, os detalhes saltam aos olhos de quem os vêem. Ele não deixa escapar nenhuma janela ou vitral de casas e prédios históricos. Nos quadros que mostram o porto, os navios de passageiros também estão presentes. "Eu adoro os navios da Costa, mas também já pintei outros que me marcaram em determinadas ocasiões", lembra o artista. Caminhões e contêineres coloridos também não faltam nas obras, assim como sacas de café. TomZé também adora as lanchas da Praticagem. Na maioria de seus quadros os "barquinhos vermelhos" estão lá. Ele ressalta que hoje já sabe a maioria dos detalhes de elementos portuários sem precisar de consulta.

 

Imaginação

É importante destacar que TomZé trabalha com elementos reais, mas não com cenários reais. A imaginação é característica marcante de suas obras e dos artistas naif. Por isso, não estranhe ver navios de passageiros, passando próximo a pontes, com a Pinacoteca ao fundo, ao lado do Forte dos Andradas e da Bolsa do Café.

 

Todos os elementos são bastante detalhados, mas não formam um "lugar de verdade", que existe e pode ser apreciado. A mescla é um ponto forte da arte de TomZé, assim como as cores espalhadas por toda a tela. O grande número de elementos mostra sua felicidade de pintar panoramas imaginários, que vêm de seu interior.

 

Sua dedicação à pintura é tão grande quanto a paixão por Santos. "Adoro a cidade. Já recebi convites para me mudar e pintar em outros locais, mas preferi ficar aqui". Ele alterna épocas em que pinta incessantemente com passeios pela Cidade e conversas com amigos. "Às vezes pinto todos os dias, às vezes fico até um mês sem fazer novas obras. Alguns quadros têm muitos detalhes e demoram mais de uma semana para serem finalizados".

 

Ele pinta de tudo

TomZé diz que a maioria dos pintores naif dedicam todas suas obras a um determinado tema. "Aqueles que pintam casa, pintam só casa mesmo. Os que pintam paisagem rural, só paisagem rural". No entanto, ele prefere a variedade e pinta o que lhe dá vontade. Para isso, ele utiliza tinta acrílica americana porque é de "rápida secagem".

 

Outra característica de TomZé é elaborar obras para exposições temáticas. Além disso, ele guarda um quadro de cada ano de profissão. "Tenho 30 anos de pintura, mas tenho mais de 30 quadros. Ou seja, tem alguns anos que guardo mais de uma obra". Sem dúvida, uma coleção de cores vivas que habitam a imaginação e as telas do artista.

 

Serviço:

“TomZé – 30 Anos de Pintura Naif”

Exposição de 19 de maio a 25 de junho de 2006

Local: Pinacoteca Benedicto Calixto
Av. Bartolomeu de Gusmão, 15 - Santos/SP

Telefax (13) 3288-2260

 


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