Aprender a enxergar soluções, mesmo diante das situações mais complicadas. Esta é a receita para alcançar o sucesso, segundo o ex-governador do Paraná, Jaime Lerner. Entre 95 e 2002, este arquiteto, urbanista e professor universitário governou um dos estados mais ricos do Brasil e, entre outras responsabilidades, administrou o Porto de Paranaguá, que é gerido pelo estado. Conhecido por ter colocado em prática o projeto que transformou Curitiba em um ponto turístico, ele contou histórias que mostram o quanto um personagem político pode pensar para tomar suas decisões.

 

Lerner esteve em Praia Grande recentemente para o lançamento do novo Plano Diretor do município. Em um auditório lotado de autoridades e populares, ele deu exemplos de como um governo ou uma carreira pode ser bem sucedida em suas realizações, algo pertinente para alguém que é conhecido por ter ajudado a modernizar a capital paranaense.

 

Ele destacou a dificuldade de governar um estado como o Paraná, pois é difícil realizar desejos coletivos, sendo que cada indivíduo tem seu próprio sonho. “Mas quando se quer desenvolver um projeto para todos, deve-se ter vontade e solidariedade, sentir a população dentro da gente, saber as necessidades individuais”, completou.

 

No seu segundo mandato como prefeito de Curitiba, entre 84 e 88, Lerner retomou suas atividades como professor na faculdade. A falta de tempo fez ele criar um modelo próprio de governar, dividindo suas atividades em dois períodos: de manhã os grande problemas eram debatidos, enquanto de tarde as decisões de caráter imediato eram tomadas. Com isso, a prefeitura não se distanciou da população nem perdeu de vista as obras de longo prazo.

 

“A mensagem que posso deixar para as pessoas é que qualquer cidadão no mundo pode melhorar sua vida em dois anos, independente da situação financeira em que esteja”. Com esta afirmação, o ex-governador procurou ressaltar que o mais importante para um projeto de vida se desenvolver é achar uma equação que una ao problema uma solução imediata. “Imediatismo é importante para que não tenhamos nossa própria insegurança como adversária”.

 

O arquiteto destaca um modelo de persistência e idéia criativa que solucionou um problema grave do estado do Paraná. “Quando eu era governador, disseram que nossa baía estava poluída. Sabia que no Rio [de Janeiro] tinham um projeto de reabilitar a Baía de Guanabara orçado em 800 milhões de dólares. Nós não tínhamos esse dinheiro”.

 

A partir daí começou-se a despoluir as águas da bacia paranaense com um projeto inovador: um acordo com os pescadores da região. Nele, ficou estabelecido que o governo do estado pagaria por todo lixo que fosse pescado. “Com isso cresceram as pescas, pois o lixo lhes rendia dinheiro ao mesmo tempo em que as águas eram despoluídas, permitindo que os peixes voltassem a aparecer, gerando mais lucros para todos”, completou.

 

Outro momento lembrado como exemplo de êxito pessoal foi a modernização do transporte de Curitiba, quando a construção de um metrô foi substituída por uma integração total entre os ônibus municipais. “Com isso, a qualidade de vida da população curitibana aumentou muito. Além do mais, economizamos milhões de dólares com esse ‘metrô de baiano’”, brincou o arquiteto.

 

As brincadeiras continuam no momento em que Lerner se lembra de uma passagem da década de 80. O papa João Paulo II visitou a cidade e, para celebrar a ocasião, uma estátua foi feita em homenagem ao pontífice. Na cerimônia oficial de entrega da obra, as pessoas levaram um susto. “O busto do papa era negro, com os olhos saltados. Parecia um exu”, conta, para depois completar aos risos: “lembro que eu e o governador saímos correndo de uma senhora polonesa que estava indignada e com uma sobrinha na mão querendo nos bater”.

 

“Depois disso, os turistas passaram a perguntar pela tal obra de arte, todos queriam ver aquele papa diabólico”. Lerner destaca que o fato é um exemplo de que a vida pode tomar rumos diferentes dos planejados antes, cabendo as pessoas se adaptarem as diferentes situações. “A cidade não é problema. A cidade é solução”, resume.

 

Jaime Lerner não falou só de suas histórias na visita à Praia Grande. Ele destacou a importância do Porto de Paranaguá para o Brasil, como gerador de empregos e porta de exportação. “Parte dos investimentos que o estado recebe se deve a existência do nosso porto, o que mostra como ele está enraizado no contexto da sociedade”, enfatiza.

 

Sobre a crise política e sua conseqüência nas instituições brasileiras, Lerner foi enfático. “Só posso dizer uma coisa: é muito triste ver isso tudo. Muito triste”. E assim terminou uma noite que serviu para mostrar que os governantes também são humanos, possuem gostos e estilos de atuação, que podem muitas vezes ajudar nos nossos problemas do dia a dia.
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