As recentes mortes no Porto de Santos não são uma mera fatalidade, segundo o delegado regional do trabalho, Heiguiberto Guiba. Por isso, poderão ser feitos no Porto de Santos comandos-surpresa nos terminais, para que possam ser avaliadas as condições de trabalho oferecidas aos trabalhadores do Porto de Santos. Um dos obstáculos criticados pelo dirigente da Delegacia do Trabalho é a burocracia que existe para se entrar em algumas das áreas arrendadas pela iniciativa privada.

 

“A fiscalização não pode ser impedida de entrar em lugar nenhum do cais santista. Hoje há um ritual para se conseguir adentrar os terminais”, afirmou Guiba, após as reclamações de alguns presidentes de sindicatos presentes em uma reunião realizada quinta-feira, na sede do Sindaport, em Santos. Ele completou dizendo que tentará eliminar os problemas, verificando quem são os culpados pelos recentes acidentes de trabalho. Para confirmar tal intenção, o delegado usou diversas vezes a expressão “só erra quem tenta, e por isso vamos tentar muito buscando a perfeição”.

 

Só em 2005, já morreram em serviço quatro funcionários, dentre os quais Josivaldo Luiz de Lima Leal, que na semana passada teve seu corpo prensado nas engrenagens de uma esteira de transporte de açúcar, e Virgilio Pedro Rodrigues, irmão do ex-vereador de Santos Adelino Rodrigues, pelo rompimento do cabo de um guindaste. Segundo Guiba, esses fatos pedem uma maior fiscalização sobre as atividades desenvolvidas no porto: “É lamentável que as mortes continuem a aparecer, embora elas tenham diminuído em relação aos anos anteriores”.

 

As críticas mais duras partiram do presidente do Sindicato dos Estivadores, Rodnei Silva. Ele afirmou que falta uma série de investimentos em infra-estrutura, como banheiros e refeitórios que atendam as necessidades do trabalhador portuário. Outro ponto polêmico seria quanto à utilização, por parte dos funcionários em geral, do Equipamento de Proteção Individual, o EPI. Para Silva, o trabalhador é obrigado a usar o equipamento, mas os responsáveis devem fazer o mesmo em relação aos navios, que muitas vezes não usam o EPC, Equipamento de Proteção Coletivo.

 

“Para construir os Gates e implantar o ISPS Code, arrumaram o dinheiro rápido. Para dar segurança ao trabalhador, no entanto, tudo é demorado. Enquanto isso, as mortes continuam a acontecer no porto”, disparou o sindicalista, que era ouvido atentamente pelo delegado. Heiguiberto Guiba, por sua vez, disse que ficou muito triste ao ouvir reclamações da suposta falta de estrutura do porto, já que “em 2003, ficou acertado que obras seriam feitas, e que o trabalhador teria melhores condições de trabalho”.

 

As declarações do presidente do Sintraport, Róbson de Lima Apolinário, refletem o sentimento de todos os participantes da reunião da última quinta-feira. “Os estudiosos dizem que não há ato falho, que existe um motivo, uma causa para tudo. Esses acidentes precisam ser esclarecidos, pois é importante que o portuário tenha segurança no seu trabalho”. Ele frisa, no entanto, que a natureza da atividade portuária é arriscada, embora ache que os problemas poderiam ser minimizados com a adoção de um maior número de cursos de procedimentos aos portuários.

 

“Devia-se investir mais no ser humano. A Autoridade Portuária e o OGMO até dão os cursos, mas eles devem ser mais abertos, com a finalidade de conscientizar o trabalhador a usar o EPI, o que não acontece hoje, onde a pessoa é, simplesmente, obrigada a usar o equipamento”, completou Apolinário. Para Guiba, o trabalhador precisa ter a consciência de usar o EPI, pois a área portuária é extremamente extensa, tanto que mil fiscais não conseguiriam vigiar 100% do porto.

 

O delegado disse também que reuniões que discutam a segurança do trabalhador devem ter participação do alto-escalão OGMO, da Codesp e do Sopesp, o que não ocorreu na última quinta-feira. O delegado ainda prometeu retornar ao Porto de Santos para falar com todos os envolvidos no problema da segurança: “em 2003, corri o risco de perder o cargo porque paramos o porto. Lá, houve um compromisso de melhorias que não foram cumpridas integralmente, pelo que os trabalhadores me disseram”.

 

O superintendente de fiscalização da Codesp, Osvaldo Freitas Vale, ouviu atentamente as duras críticas feitas pelos representantes dos diversos sindicatos, dizendo, por fim, que levaria todas as sugestões para a direção da estatal, se comprometendo a viabilizar uma nova reunião, dessa vez na Codesp, para discutir a segurança no Porto. “E vamos fazer algo aberto, com a imprensa acompanhando a gente”, finalizou o delegado Guiba.
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