Na segunda parte da entrevista sobre a crise econômica mundial que derrubou as bolsas de valores dos principais países, na última semana, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hildete Pereira de Melo, diz que o Brasil está preparado para enfrentar as consequências da crise, ao mesmo tempo critica a o capital financeiro como o “pivô” da crise e cita o empresário Eike Batista como um predador.

 

* Os tempos são assustadores para a economia mundial, avalia economista

 

Portogente – A senhora acredita que o capital financeiro que hegemoniza a economia mundial é o pivô dessa crise?

Hildete Pereira – É. No Brasil, o Eike Batista, por exemplo, é um predador, como são os capitalistas. Até que ponto o mundo de minérios onde ele está ancorado é real ou feito de papéis e no mercado de derivativos, portanto o mercado da jogatina e das apostas. Isso é um problema, porque a abertura do mercado financeiro a partir da década de 1980 invade as economias mundiais (o Brasil adere tarde, mas adere) é completamente descolada do mundo real. Esse capital que circula de um lado para o outro apostando na taxa de câmbio, na chuva, em qualquer coisa para ganhar no diferencial das taxas, em algum momento alguém vai pagar a conta. Não se pode empurrar com a barriga por muito tempo. O empresário Eike é bem representativo desse mundo da economia extremamente anárquico e descolado do mundo real.

 

Portogente – Em relação ao Brasil, estamos preparados econômica e politicamente para enfrentar as consequências dessa crise?

Estamos. Politicamente um governo sólido e democrático, por mais que a coalizão que sustenta a presidenta Dilma seja instável e delicada, suscetível demais às suas vantagens e aos usufrutos do aparelho de estado, eu diria que a democracia está sólida. A política econômica está traçada para defender a economia da recessão, não é à toa que a política industrial foi relançada tentando defender a economia, uma posição forte e criar empregos. Esse baixo crescimento, essa recessão ficará como “fogo de Monturo” corroendo o mercado global.

Portogente – O Brasil ficará com essa recessão acentuada ou as medidas que o governo Dilma adotou darão um fôlego?

Não sei. Espero que dê um fôlego que pelo menos a gente não chapine numa recessão, mas que tenhamos um crescimento fraquinho. Diria que o “céu não está para brigadeiro”, está com nuvens pesadas. Há um pessimismo e é impossível dizer o tamanho da crise e o tamanho das soluções políticas que podem ser tomadas, sobretudo pelas principais potências (Alemanha e França, em relação à Europa). A Inglaterra já vive uma situação assustadora. Os distúrbios continuam e a repressão no caso inglês é que me assustou. Fico com medo, porque depressão e crise não deram boa coisa no mundo. A crise de 1930 não deu boa coisa: regimes totalitários e guerras, muito sofrimento para a humanidade. Os tempos são assustadores.

 

Portogente – Que medidas precisam ser tomadas para o Brasil se proteger das intempéries internacionais?

O controle de capital é uma delas. Até suspiro quando falo sobre isso, porque temos de defender a moeda nacional porque a crise se aprofunda e anda mais rápido pelas aberturas comerciais e financeiras. Todo mundo sabe que os capitais com liberdade de acesso a todos os mercados dão besteira. Há um problema de senhoriagem das moedas nacionais e que foi conferida ao dólar como a moeda  para os contratos mundiais em 1944 [Bretton Woods], que prenunciava o poderio americano, consolidando seu império na Segunda Guerra, com a moeda, o comércio e as armas. Isso teve um preço: duas décadas de crescimento intenso, que levaram os americanos a defender com unhas e dentes seu padrão de vida e hegemonia no mundo. A presidenta Dilma é economista, conhece e está determinada.

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