O sistema político brasileiro atual está viciado, mas não em crise, quem quer passar essa impressão são os monopólios privados da mídia. A avalição dos últimos acontecimentos envolvendo ministros do Governo Dilma é do sociólogo Emir Sader, que no início do mandato da presidenta chegou a ser cogitado para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa. Sader, que também foi um dos organizadores do Fórum Social Mundial, falou com o Portogente sobre a “gangorra” política instalada na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

 

* Rossi se defende e acusa ex-funcionário de denuncismo

* Adeus Nascimento

 

Portogente - Na sua avaliação por que em seis meses de governo Dilma dois ministros caíram e outros ministros estão sendo investigados?

Emir Sader – Em parte se deve às alianças que o governo necessita para ter maioria no Congresso, com partidos em relação aos quais não tem qualquer controle sobre o comportamento dos ministros. Ao não conseguir maioria de esquerda, o governo é um governo de centro-esquerda, incluindo também partidos de direita, com o Partido Progressista (PP). Em parte se deve também ao afrouxamento do comportamento público de membros dos próprios partidos de esquerda, revelando preocupante grau de deterioração nas formas de ação de quadros que deveriam ser os exemplos mais claros de transparência. Para além desses comportamentos, o Estado brasileiro se presta para isso, entre tantos outros aspectos negativos, que requerem uma urgente reforma política da globalidade do Estado.

 

Portogente – É uma crise de um sistema político viciado?

Um sistema político viciado, que tem esses reiterados soluços. Eu não diria que é uma crise, não se configura como tal. Mas entre a reiteração desse tipo de irregularidades, mais a incapacidade do governo de disputar a agenda pública com a oposição que conduz os monopólios privados da mídia, dá a impressão de crise e de que o governo está paralisado por isso, o que não é verdade.

 

Portogente – É possível ou não mudar uma situação como essa?

Difícil mudar sem uma reforma democrática do Estado. É um Estado feito para ser governado pelas minorias em função dos interesses das minorias, sem transparência, nem intercâmbio com os setores populares.

 

Portogente – Corrupção e política são assuntos necessariamente ligados?

Não, certamente não estão intrinsecamente interligados. Política, por definição, é coisa pública, que por definição é transparente, se deve à cidadania. Temos de resgatar esse seu sentido essencial.

Portogente – Que reformas seriam necessárias para mudar o sistema?

Uma grande reforma do Estado e não apenas uma reforma eleitoral, como se discute. O Lula e a Dilma tinham se comprometido, durante a campanha eleitoral, com a convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma, tema que parece abandonado, e que teria possibilitado uma reforma democrática de toda a hermética estrutura estatal. O orçamento participativo seria um espaço essencial em uma reforma democrática do Estado.

Vídeo com o poema Analfabeto Político, de Bertolt Brecht:

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