Nesta segunda parte da entrevista, o professor Carlos Henrique Rocha, coordenador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes (Ceftru) da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a frota mercante da cabotagem está inadequada às necessidades da economia do País, por isso o modal ainda é tão subutilizado. A escassez de carga para a criação de linhas regulares de cabotagem e o descrédito em relação ao Programa de Incentivo à Cabotagem (PIC) são outros pontos destacados pelo especialista.

* Acompanhe o especial "Cabotagem: problemas e soluções"
* Primeira parte da entrevista: Portos nacionais estão longe de serem plataformas logísticas

PortoGente - Existe a crítica de que a movimentação de mercadorias para o consumo interno, como o de produtos alimentícios, não é feita pela cabotagem. Por que?
Carlos Henrique
- Usualmente, os produtos in natura são transportados por caminhões, com destino as fábricas. As fábricas estão localizadas próximas às regiões produtoras. Os produtos alimentícios industrializados abastecem supermercados localizados nas grandes cidades e também localizados no interior do País, sendo mais facilmente atingidos por caminhão. O setor de alimentos tradicionalmente prefere a operação porta a porta.

PortoGente - Dados da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), de 2007, mostram que a cabotagem movimentou 194.598.576 de granéis líquidos (petróleo) e 457.435.373 de granéis sólidos (cereais). E no ano passado, a carga geral limitou-se a pouco mais de 102 milhões. O que a cabotagem pode movimentar e ainda não o faz?
Carlos Henrique
- A frota mercante de cabotagem é inadequada para as necessidades da economia nacional. No entanto, a cabotagem pode aumentar sua participação na matriz de transporte de carga geral em contêineres. Para tanto, é preciso que haja carga regular e em quantidade suficiente que viabilize o surgimento de linhas de cabotagem entre as regiões do Brasil.

Foto: Bruno Merlin

O transporte de granéis ainda é mais comum na cabotagem, apesar do grande potencial desta modalidade para a movimentação de contêineres

PortoGente - Dar mais atenção à cabotagem significa criar uma “guerra” entre os modais, principalmente com o rodoviário?
Carlos Henrique
- Não vejo dessa forma. Os serviços prestados pelos modos de transporte não podem ser visto como concorrentes, eles são complementares.

PortoGente - O PIC da Secretaria de Portos traz soluções para a adoção da cabotagem em alguns portos. No entanto, não ataca questões como a alta carga tributária, o preço do bunker e a burocracia dos portos. Ainda assim, o PIC conseguirá trazer avanços para a cabotagem brasileira?
Carlos Henrique
- Sou cético quanto ao alcance do PIC. Um programa que não atinge os tributos e a burocracia dificilmente logrará sucesso.

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