“Ilhéus é cheia de morros com casas penduradas e o Governo da Bahia não tem condições de controlar o surgimento de favelas. É isso que nos preocupa com essa história toda de Porto Sul”. O desabafo é do líder comunitário da Vila Juerana, Paulo Emílio Nascimento, que conversou com o PortoGente em nome da comunidade, de pouco mais de 600 moradores. A Vila Juerana [foto à direita] deve ser uma das mais afetadas com a construção do Porto Sul. Nascimento tenta, junto com outras organizações não governamentais, barrar o projeto. Confira a entrevista abaixo.

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PortoGente – Em que estágio se encontra a história do Porto Sul?
Paulo Emílio
– O Governo da Bahia e a mineradora Bamin estão usando todas as ferramentas disponíveis para convencer a população desinformada que esse porto é um grande negócio.  Muita propaganda e o uso da máquina pública em benefício de um projeto privativo, usando o dinheiro nosso. Propagandas bonitas, com fotos de matas, lagoa encantada, rios e belas praias e nunca mostram as pilhas de minério de ferro. Digo sempre que isso é exatamente igual às propagandas de cigarro, escondem a realidade e deveria também ser proibida. O projeto é um só, mas no licenciamento eles separaram para confundir. Estão jogando sujo.

PortoGente – Como segue a rotina de quem é contra o projeto? Existe algum tipo de ameaça contra vocês?
Paulo Emílio
– Cada dia mais desgastante, mas enquanto não conseguirmos barrar esse projeto não descansaremos. Continuamos com reuniões, manifestações de todos os tipos, panfletagem e conversas de corpo a corpo. A nossa comunidade foi a última onde eles conseguiram entrar, propondo um projeto de cursos que eles chamam de transformar, nós chamamos de enganar. Depois de muita tentativa de entrar através de nossa associação e não obtiveram sucesso, procuraram outras lideranças. Claro que temos moradores interessados nos cursos e no Porto Sul em si, mas a maioria não aceita isso, posso te garantir.

PortoGente - Em que condições o Porto Sul poderia ser instalado? O que vocês defendem como solução?
Paulo Emílio
– Os governos da Bahia, Federal e de Ilhéus mesmo esqueceram seus papéis. Temos aqui como na maioria dos municípios um descaso tremendo. A nossa região é desprovida de tudo, não tem segurança, saúde, transporte, educação e os outros serviços são precários. Nosso litoral não tem sequer água tratada fornecida por uma empresa. Não vejo condições para esse projeto ser instalado em lugar algum do sul da Bahia, seria um desastre para qualquer município. Na Vila Jureana, todos têm ciência de que o turismo sustenta nossa comunidade, embora a Bamin jure que não.

PortoGente – O Porto Sul não seria um revitalizador de Ilhéus? Ele não geraria empregos?
Paulo Emílio
– Vejo por outro lado: não temos nenhum serviço público funcionando com qualidade em Ilhéus. A cidade é cheia de morros com casas penduradas por todos os cantos e o Governo da Bahia não tem condições de controlar o surgimento de favelas. É isso que nos preocupa. No próprio relatório da mineradora Bamin, já consta em uma de suas páginas o seguinte trecho: “em função da grande procura por empregos, surgirão no entorno do projeto bolsões de pobreza”.


O Rio Almada corre paralelamente à costa de Ilhéus por
muitos quilômetros e é um grande atrativo turístico da região

PortoGente – A Vila Juerana será afetada pelo Porto Sul? Quantas pessoas moram na Vila?
Paulo Emílio
– Certamente sim, pois vivemos do turismo, principalmente por conta do Rio Almada, que passa ao lado das nossas cabanas, no centro da Vila. Aqui os turistas tomam banho e se divertem o dia todo, pessoas compram terrenos e constroem suas casas. Mas esse mesmo rio vai ser cortado pela ferrovia a mais ou menos 3 quilômetros da vila, será contaminado e destruído com toda a atividade da comunidade. Temos conhecimento de que donos de hotéis e pousadas que iriam se instalar aqui estão aguardando uma decisão: se o porto vier, eles vão embora.

PortoGente – Se você pudesse encontrar hoje com o governador do Estado, o que diria a ele sobre o Porto Sul?
Paulo Emílio
- Que temos outras atividades para o desenvolvimento sustentável da nossa região, que não temos nenhuma afinidade com o setor industrial, muito menos o setor da indústria suja que é o minério de ferro, que o dinheiro que ele está autorizando gastar com a mineradora gera desconfianças na população e os votos que ele vai ganhar agora vai perder o dobro no futuro, pois as pessoas não vão demorar a entender a enrascada que entraram acreditando mais uma vez nele. 

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