Economista Zeina Latif é a primeira convidada da série de lives organizada pela Abol - Associação Brasileira de Operadores Logísticos no mês de seu oitavo aniversário

No mês em que completa oito anos de atividade como entidade representante dos Operadores Logísticos, a Abol - Associação Brasileira de Operadores Logísticos programou uma série de lives exclusivas com personalidades dos setores logístico e da economia para debater ideias, ações e compartilhar boas práticas. ⠀

Zeina LatifZeina Latif fez apresentação de cenário econômico do País em live da Abol. Crédito: Divulgação.

O primeiro encontro online teve como protagonista a mestre e doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP), Zeina Latif, que fez uma apresentação sobre o cenário econômico atual com a crise da Covid-19. Quem recebeu Zeina foi o diretor presidente e CEO da Abol, Cesar Meireles .

Na visão da economista, mesmo escancarando as fragilidades do país, a crise é uma oportunidade para rever as políticas públicas e a forma como o Estado intervém na economia. "Crescimento, geração de empregos, capacitação de mão de obra e distribuição de renda são temas que estão na ordem do dia. Existe muita gente séria trabalhando nessas questões e é nossa responsabilidade apoiar as medidas que vão sanear e melhorar a realidade pública, mesmo que afetem nosso bolso", disse, acrescentando: "É muito importante coesão na sociedade para enfrentarmos as dificuldades. Todos estamos sofrendo com a pandemia. Não podemos perder a oportunidade de refletir sobre o que está acontecendo. As ações exigem muito mais maturidade da nossa sociedade e da classe política", avaliou.

Para ela, o cenário no Brasil é grave, do ponto de vista da saúde e da economia, somando-se a este contexto o comprometimento da imagem do País no exterior. "Precisamos entender como chegamos a esta situação. Primeiro, é um equívoco achar que o governo daria conta de tantos problemas e evitar o "tsunami" que se instalou. Quando simplificamos as questões e nos limitamos a apontar erros do governo, perdemos a capacidade de refletir sobre as nossas mazelas e como devemos atuar. É importante ter isto em mente para o momento de discutir agendas futuras", disse.

Zeina acredita que um agravante é o fato de o estado brasileiro ter perdido a capacidade de fazer planejamento de ações, deixando de contar com diagnósticos mais claros que permitam estruturar políticas públicas melhor desenhadas. "Além disso, temos um orçamento muito rígido, não existe um espaço amplo para a realização de gastos no Brasil; quase a totalidade do orçamento federal está comprometida com gastos obrigatórios. E já estamos muito 'mal na foto' quando olhamos para indicadores fiscais, para a dívida pública. Precisamos saber usar o gasto público com mais sabedoria. Saímos criando políticas públicas sem muita reflexão", opinou.

Além disso, dificuldades estruturais, como a informalidade, subtraem assertividade das ações propostas pelo governo. "Entender essa realidade é fundamental para poder desenhar políticas preventivas e punitivas e reduzir o impacto da informalidade na economia, que cria concorrência desleal e compromete a arrecadação". Ela admite, entretanto, que houve iniciativas importantes entre as medidas propostas pelo governo, com ações para injetar liquidez na economia, preservar o mercado de crédito e liberação de recursos para os mais vulneráveis, com os auxílios emergenciais.

Mercado de trabalho
A economista chamou a atenção para o comportamento do mercado de trabalho brasileiro durante a pandemia, que vem performando uma trajetória menos grave quando comparado com outros países na América do Sul, com políticas macroeconômicas nos mesmos pilares que o Brasil.

"Quando observamos os dados do mercado de trabalho com carteira assinada e analisamos março, abril e maio deste ano com o ano passado, percebemos que o número de demissões está no mesmo nível. O grande impacto recaiu sobre a informalidade. De qualquer forma, a taxa de desemprego, hoje em 12,9%, vai subir e não podemos descansar. O governo precisa ficar atento para não apenas dar socorro, mas incluir na agenda como qualificar a mão de obra para este novo mundo, cada vez mais digital, o que nos obrigará a rever urgentemente a política educacional. Não podemos perder a oportunidade de tirar lições da crise, de entendermos que este estado funciona e gasta mal; precisamos melhorar a gestão das políticas públicas e econômicas no Brasil", avaliou.

Para ela, o simples repasse de recursos é uma armadilha. "De nada adianta transferir recursos para um estado que gasta mal. Não vamos resolver o problema da má distribuição de renda e da pobreza simplesmente transferindo recursos. Devemos reestruturar essas agendas e criar um ambiente regulatório menos burocrático, mais favorável para investimentos e para o crescimento. Tivemos alguns avanços nos últimos anos, mas a crise evidenciou como ainda estamos atrasados. E a melhor forma de gerar um crescimento de fato sustentável e com inclusão social é reavaliar a intervenção do estado que hoje gera baixo potencial de crescimento".

"Vou citar um número para termos ideia da loucura que é o Brasil. A estimativa de especialistas é que o tal contencioso tributário no Brasil está na casa dos 73% do PIB, o que é inimaginável na experiência mundial, que deve ser na casa do 1%. Como as empresas vão se preparar para um mundo tecnologicamente mais avançado com esta carga tributária e com regras tão complexas e que podem aumentar a qualquer momento? Hoje temos um ambiente que penaliza o investimento", continuou.

Cesar Meireles encerrou o evento agradecendo a participação de Zenia Latif. O diretor presidente da ABOL destacou que a economista conseguiu apresentar um retrato nítido da atual situação econômica do País e enfatizou a importância da maturidade no planejamento das ações governamentais.

"O momento é muito delicado. Precisamos todos nos unir para buscarmos as ferramentas e plataformas efetivas para enfrentarmos os desafios. Sem o diálogo e o olhar maduro, não há como sairmos desta situação sem uma expansão das funções em todos os níveis. E isso converge para a própria característica do operador logístico, que é um integrador das atividades, que atua em todas cadeias produtivas e em todas as atividades da cadeia logística de valor, o que equivale a dizer que os Operadores Logísticos estão presentes em todas as extensões da economia e ainda mais neste momento, qualificados como atividade essencial", finalizou Meireles.

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