Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM

Um dos fundamentos da sustentabilidade é o uso ponderado e conservacionista de recursos. Mas na produção, distribuição e consumo mundial de alimentos, o que vemos é uma realidade marcada pelas perdas e desperdícios.

Ao longo da cadeia produtiva, os números sobre perdas de produto são eloquentes e distribuem de forma desigual: produção 24%; manuseio e armazenagem 24%; processamento e embalagem 5%; distribuição e mercado 12%; e consumo 35%. Como se vê, um desafio que demanda gestão segmentada e por prioridades.

São índices mundiais, com chancela de organismos internacionais como WRI e FAO¹, que refletem o desperdício médio global de alimentos. O que não absolve o Brasil dentro do contexto planetário, pois aqui se chega a falar em perdas totais de 20 a 35%, ou até mais, dependendo a fonte de dados.

Traduzidos em volumes e valores, os índices mundiais revelam perdas anuais sombrias: 24% da produção mundial de alimentos; 1,4 bilhão de hectares cultivados inutilmente; 1,3 bilhão de toneladas de alimentos jogados fora; e monumentais 750 bilhões de dólares de prejuízo¹.

O que fazer para reverter essa situação?  Sabe-se que certo volume de perdas ou desperdício é inevitável, por conta da complexidade no abastecimento, perecimento, injúrias físicas e filtros culturais de consumo sobre a qualidade dos alimentos. Faz parte da “natureza” do mercado e a isso então vão se acrescentar outros gargalos.  

Coisas como déficit tecnológico ou estrutural em logística e conservação de alimentos. Ênfases de gestão, como sugere o fato das maiores perdas pré-consumo acontecerem em fases onde a padronização de processos e controles é menos evidente. O que, por sua vez, levanta a questão da educação e capacitação profissional, principalmente nas bases operacionais.

Tem, também, o fator cultural dos consumidores, pois parece haver alguma relação direta entre o desperdício e a opulência e diversidade de consumo, nas sociedades afluentes. E tem ainda a sempre fundamental criatividade, como mostra o Aplicativo Anama para redistribuição de alimentos, vencedor na 3ª Maratona de Desenvolvimento de Aplicativos Hackathon².

O aplicativo conecta entidades sociais que fazem redistribuição de alimentos a empresas que tem excedentes para doar, abrindo assim novas fontes de fornecimento. Ele também monitora toda a operação de doação e ainda controla a qualidade dos produtos entregues. Tecnologia inovadora disponível, gratuitamente, a ONGs e doadores³.

Nada disso é uma solução em si, pois o desafio é multidisciplinar. Na verdade, são fatores convergentes para uma gestão equilibrada do problema, mostrando que a reversão das perdas envolve total integração de ferramentas e visão de cadeia produtiva.

Uma coisa é certa: hoje, a sustentabilidade está em alta na ordem das preocupações da sociedade. Mas enquanto o desperdício de alimentos não for atacado com todas as forças e inventividade, não dá pra dizer que há 100% de seriedade e compromisso na busca por um mundo sustentável.

(1)     Dados a partir das fontes World Resources Institute e FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, consolidados e publicados pela revista Super Interessante, Editora Abril, ed. 339, seção “Banco de Dados”.

(2)     Maratona de Aplicação Hackthon para jovens empreendedores, iniciativa da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Desenvolvimento de App mobile em apoio aos negócios.

(3)    Anama Food Sharing: [email protected]

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*Todo o conteúdo contido neste artigo é de responsabilidade de seu autor, não passa por filtros e não reflete necessariamente a posição editorial do Portogente.

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