Advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho

O Nordeste sucumbe. Graciliano Ramos empenha o máximo de sua pena máscula e vigorosa para denunciar. Uma família de retirantes a morrer de sede, sem exceção da cachorrinha Baleia. O pau-de-arara, aquele cuja saída Lula um dia perdeu, porém retornou para recuperar o menino choroso. Uma região cáustica. Chuva é milagre que ameniza as peles ressequidas e as línguas desesperadas. O Brasil lamenta seu nordeste. No entanto, é muito maior que o nordeste, em sua amplitude generosa, onde, em se plantando, tudo dá.

O país caminha muito bem. Uma das maiores economias do mundo. Os indicadores negativos são "sazonais", passarão, como eu, passarinho. Assim falou Zaratustra, perdão, a candidata. Tudo voltará ao normal, se votarem no governo vencedor. Não há autocríticas por fazer. Fidel Castro as fazia, mas sem abrir mão do governo. Em regime democrático, a autocrítica dos marxistas é tiro no pé. Portanto, melhor não fazer.

Não faltaram poetas a exaltar esta maravilha terrestre. Um ecosistema perfeito, em que pese aquela pequena porção do sertão nordestino. Afinal, nem tudo é perfeito. Nossas águas correm límpidas. Nossos bosques são incomparáveis, têm mais vida, mais amores. Nossa gente é cordata, amiga, trabalha, cumpre os contratos. Todos se respeitam. Há presídios, destinados apenas a alguns transviados. Não temos litígios fronteiriços, brigas por terras; afinal, somos grandes demais.

E temos a Amazônia, pulmão do mundo. De lá se retira apenas o látex, por comunidades primitivas. Um maravilhoso teatro foi plantado em seu coração, para reverenciar suas maravilhas naturais. Todo inglês que se preza quer ver o encontro das águas.

Do outro lado desse país cantado pelas mais cândidas literaturas, há São Paulo. Um lugarejo no planalto onde termina a subida da serra que o separa do litoral dos imigrantes, de olhos abertos para a Europa. Plantado num cume central aprazível, onde se ergue o colégio dos abnegados jesuitas. Cientistas talvez esclareçam o porquê, mas o fato é que todo dia garoava. Uma aldeia predestinada à declaração da independência, ainda que às margens de um riacho a lembrar um canal do Tejo. E a ser o maior PIB do país e um dos maiores do mundo. Cresceu, desordenamente, como as principais concentrações urbanas da América Latina. Poluiu-se, a garoa despareceu, sobrando apenas as lonas que nos protegiam de seus pingos nas feiras livres. Um povo obstinado, para não dizer obcecado pelo trabalho árduo.

Hoje, destinado a sucumbir pela sede. Quem viver em 2015 verá. Consequência direta do desmatamento da Amazônia. Para criação de gados e proliferação de gás metano. As árvores anciãs só estorvam. Há muito foi-se o pau-brasil. O mundo, a ONU, perceberam sua importância. E a degradação foi contida até 2008. De lá para cá, ampliou-se cada vez mais a invernada. 122% de sinais por satélites de aumento do desmatamento em 2014. 1.626 km2 de floresta. O governo estava em eleições, presidenta e ministros. Afinal, é preciso manter o poder, ainda que mediante pacto com Mefistófeles. O problema está na origem ou no fim? Claro que é muito mais fácil perceber o efeito. As causas podem ser múltiplas. Culpa de um governo estadual que confiou em São Pedro, ao invés de realizar obras de infraestrutura.

São apenas devaneios de cientistas dizer que a floresta tem mágicos "rios voadores" (cursos de água atmosféricos), impulsionados pelos ventos; que são invisíveis, passam por nossas cabeças a umidade da bacia em direção ao centro-Oeste, sudeste e sul do Brasil. Infraestrutura divina, que nada custa nem rende votos. A bomba d'água estará seca em 2015. Serão poeirentas as lágrimas dos paulistas e daquelas outras regiões, que já se prenunciam. Deus não costuma tolerar desaforos.

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