Quinta, 05 Março 2026

Editorial | Coluna Dia a Dia

Portogente

E quem sabe onde é e o que significa 'Bab el-Mandeb' (Babelmândebe)?

Inevitável focar neste assunto, dada a repercussão imediata que teve nos mercados mundiais. Até pela questão em si, recheada de absurdos - se bem que o 'absurdo do dia' é a marca registrada do atual governante dos EUA.

Veja mais: EUA x Irã: entenda as origens e os motivos da escalada do conflito – Exame, 28/2/2026

Ele queria melhorar a economia do país: aplicou um tarifaço que ajudou a afundar o dólar; afastou os parceiros de décadas/séculos; debochou do mundo e foi punido pela Suprema Corte (que julgava fácil de manipular) com a declaração de ilegalidade das tarifas. Agora, enfrentará a enxurrada de ações judiciais pela devolução das tarifas cobradas ilegalmente.

Queria o “Nobel da Paz”, alegando ter parado incontáveis guerras (não por serem muitas, mas por não poderem ser efetivamente contabilizadas). Não conseguiu a láurea, resolveu ser o Senhor da Guerra. Explicitamente, transformou seu Departamento da Defesa em Departamento de Guerra.

Veja mais: Ataque ao Irã: entenda o que aconteceu e o que pode vir agora - G1, 2/3/2026

E atacou o Irã, em meados de 2025, quando ‘cantou vitória’ de que seus bravos aviadores tinham aniquilado o poderio nuclear do país islâmico. Agora, iniciou nova série de ataques, justamente porque o Irã teria armas nucleares prontas para disparar contra os EUA. Não tente entender.

Desta vez, a retórica americana conseguiu ser pior que a usada no Iraque, quando o ditador de plantão foi derrubado e morto sob a alegação de ter armas biológicas escondidas debaixo duma ponte. Vitoriosos, os EUA passaram pente-fino no Iraque. Cadê as armas? E anotem: o Brasil está na lista das próximas vítimas, com suposta base militar chinesa secreta, tão secreta que tem endereços em Salvador/BA. E na Serra do Urubu/PB. Para bom entendedor...

Veja mais: Relatório do Congresso dos EUA acusa Brasil de ter base militar chinesa secreta - CBN/Globo, 27/2/2026

Aí, no início desta semana, usando até câmeras de trânsito 'hackeadas', o Grande Irmão que Tudo Vê localizou e matou a cúpula do poder iraniano. No dia seguinte, continuou a guerra porque os inimigos “pretendiam atacar os EUA”, então ele “precisava atacar primeiro”.

Mesmo argumento falacioso de Israel, apesar dos dois não se entenderem: cada um diz que o parceiro é que forçou o início desta guerra. Também o governante gringo não se entende com seu secretariado: é um tal de presidente desmentir secretário que desmentiu o presidente que...

Argumento por argumento, ambos acusam o Irã de terrorismo, mas quando uma nação soberana é aterrorizada, atacada e invadida sob qualquer pretexto, para submetê-la à vontade do atacante, que nome se dá a isso? Ainda mais quando a população é 'convidada a aproveitar imediatamente a oportunidade e derrubar seu governo', convite feito por nação supostamente defensora dos valores do debate democrático...

Um artista no centro do picadeiro não faria melhor. Só que não tem graça: isso custa milhares de vidas, destroi o ordenamento jurídico internacional (a tal da soberania e o tal Direito Internacional, jogados na lata de lixo), desmonta organizações como a ONU (aliás criada para não agir quando um problema afeta algum dos "cinco super decisores") e atinge especialmente organizações humanitárias que tentam remendar os estragos. Além, claro, de piorar a economia interna dos EUA e atrapalhar a vida do resto do mundo... com a cumplicidade de parcela significativa da população, sedenta de sangue (desde que seus filhos voltem inteiros para casa...).

Veja mais: Irã diz que Estreito de Ormuz foi fechado: qual é sua importância e quais podem ser as consequências - BBC News Brasil, 1/3/2026

Enfim, este é o mundo que temos. Se ainda restam dúvidas de que países, governos, empresas e cada cidadão deste planeta precisam se acautelar, ter sempre planos B, C e quantos mais puderem, é porque algum cético acabou de aterrissar neste planeta e ainda não entende a situação local.

E, se depender de certos meios de desinformação, continuará não conhecendo. "Guerra EUA x Irã"? Como, se pelo menos 12 países estão atacando e/ou se defendendo diretamente no Oriente Médio? Contando: Irã, Israel, Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Líbano e Chipre. Ah, tem o 13º, Estados Unidos – logo eles, tão supersticiosos com o número 13...

Veja mais: Bab-el-Mandeb – Wikipédia/EN, 2/3/2026

Ormuz (entre Irã e Emirados Árabes Unidos) – e outro estreito menos famoso mas igualmente importante, Bab el-Mandeb (entre Iêmen e Djibouti) – voltam ao noticiário devido ao seu fechamento à navegação, principalmente de petroleiros. Lembrando: em árabe, Bab el-Mandeb significa nada menos que "Portão das Lágrimas" ou "Portão da Dor". Adivinhem o motivo.

Lembrando ainda nesse contexto do Canal de Suez, o mundo conhece há décadas a grandeza do risco e suas consequências, mas não desenvolveu outras rotas de comércio marítimo ou multimodal que reduzam o problema.

Tentativas são válidas, mas representam apenas uma potencial solução futura, não uma realidade usável já. Entram nessa lista as rotas bioceânicas sul-americanas, o canal da Nicarágua, algumas estruturas em obras na África, os testes de uso de rotas árticas (acima de Eurásia e América do Norte), mas (desconsiderando o canal do Panamá, por razões da recente geopolítica internacional), resta como alternativa viável aquela rota explorada por Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, via Cabo das Tormentas/Boa Esperança.

Veja mais: NPK – Wikipédia/PT

Lição ainda não aprendida pelo Brasil, apesar da guerra na Ucrânia e do bloqueio econômico à Rússia: fertilizantes. Quantas indústrias de fertilizantes existiam em Cubatão/SP, nos anos 1970/80, fornecendo essa matéria-prima fundamental para o desenvolvimento da agricultura brasileira? Quantas existem hoje? Por qual porto chegava o complexo NPK para processarem?

Ficou tão no passado a queda na produção local para favorecer importações que talvez seja necessário relembrar que NPK é a sigla formada por 'N' de Nitrogênio, 'P' como símbolo do Fósforo e 'K' de Potássio. São os macronutrientes primários presentes no adubo, essenciais para o desenvolvimento das plantas.

Pois é: a Ucrânia (devastada por uma guerra) era nossa grande fornecedora desses produtos. Agora temos uma guerra no Oriente Médio (que "só vai durar algumas horas, como na Venezuela" ou melhor, "pode durar umas três ou quatro semanas", mas "os EUA têm capacidade para sustentar a guerra por tempo infinito" - palavras do futuro ‘Prêmio Ignobel da Guerra’).

O novo conflito no Oriente Médio pode deixar o Brasil sem o 'N' do NPK, presente na ureia, da qual o Irã é importante fornecedor. O item 'K' tinha em Israel o quarto maior fornecedor ao Brasil (em 2024). Sem falar na insegurança logística, que afeta todas as cargas que passem por aquela área.

Veja mais: Rota dos grãos em risco: o impacto da crise no Oriente Médio sobre o comércio brasileiro - Veja Negócios, 1/3/2026

Falta citar o fósforo (vem de Rússia, China, EUA, Marrocos). Símbolo 'P", do grego 'Phosphorus', 'portador de luz'. Acendam velas com ele, para iluminar as mentes dos planejadores nacionais. Não são as unidades produtoras da Petrobras na Bahia e no Sergipe, ambas já perto do limite de capacidade, que substituirão a atual dependência externa. Que impacta profundamente toda a agricultura nacional e, portanto, subordina a economia brasileira aos humores externos e às ambições de poder de quem não respeita ninguém.

Oriente Médio em crise

Oriente Médio de novo no olho do furacão. O mundo tenta circular em volta
Imagem: Flightradar – 3/3/2026

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