Rafael Dantas* É diretor comercial da Asia Shipping, maior integradora logística da América Latina e a única da região presente no Ranking dos 50 maiores agentes de carga do mundo.

Apesar do conflito entre Rússia e Ucrânia e do aumento substancial de fretes vivido no ano passado, que acabou se estabilizando em patamares mais altos no primeiro trimestre, o Comex brasileiro pode viver um bom momento em 2022. Não se trata de otimismo exacerbado, mas de indícios de que as exportações devem crescer, com grandes chances de o Brasil figurar entre as potências no comércio exterior global.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o País tem tudo para deixar de ser um nanico e recuperar parte do protagonismo na economia internacional se solucionar as amarras que impedem o aumento da competitividade nacional nos negócios, especialmente com os vizinhos da América Latina e Caribe.

Com o conflito atual na Europa, a maior dependência de produtos básicos como combustíveis, minérios e alimentos podem dar ao Brasil um papel importante para tentar resolver desafios mundiais, ampliando suas exportações. Atualmente, o País é responsável por 1,2% de participação das exportações mundiais, ocupando a 27ª posição global. Mas o crescimento dessa participação é visto como inevitável para Claver-Carone, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para quem o Brasil tem potencial para exportar aos Estados Unidos 50% do que a China vende atualmente, o que representaria um ingresso de R$ 50 bilhões por ano.

Mas para isso se concretizar, é fundamental que toda a cadeia logística nacional esteja preparada e atenta à profissionalização do mindset para o comércio internacional, reforçando massivamente investimentos em infraestrutura logística e portuária.

Temos uma oportunidade única nas mãos, talvez a maior que já apareceu para nossa geração.

Os gargalos no setor de transporte marítimo desde a pandemia, que produziu escassez de contêineres, agravada desde o começo do conflito no Leste Europeu, fizeram disparar os fretes marítimos desde 2021. No caso de um navio saindo do Brasil com destino aos países das Américas, o frete saltou de US$ 1,5 mil para US$ 9 mil por contêiner transportado entre o Brasil e as Américas, enquanto o frete rodoviário no porto de Itaguaí avançou de R$ 1,2 mil para R$ 1,5 mil. No ano passado, a Asia Shipping, por exemplo, bateu seu próprio recorde, movimentando 422 mil TEUs, consolidando a 33ª no ranking global de movimentação de cargas marítimas, única operadora brasileira listada entre as 50 maiores do mundo.
Embora o País tenha registrado em 2021 um superávit de US$ 61 bilhões, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, com recorde nas exportações, que checaram a US$ 280 bilhões, a participação no comércio global está aquém do potencial do Comex brasileiro, mas com grandes chances de superar as dificuldades.

Segundo Larry Fink, CEO da BlackRock, fundo que administra mais US$ 10 trilhões globalmente, o Brasil e a América Latina podem se beneficiar do que chama de “nova ordem mundial”. Se Brasil, México e Colômbia se concentrarem e se abrirem para novos negócios, haverá mais empresas próximas ao nearshoring ou onshoring, modelo bastante utilizado na terceirização de serviços de tecnologia. A principal vantagem seria contar com fábricas regionalizadas para atender uma demanda local, evitando rupturas na cadeia logística, como ocorreu com a China durante a pandemia e, mais recentemente, com a política de tolerância zero em relação aos casos de Covid, que levou ao fechamento de alguns portos e cidades.

A principal vantagem do nearshoring é descentralizar a dependência de um único país, especialmente em cenários de incerteza. Porém é um processo que deve ocorrer gradualmente, pois os “desbravadores” terão que solucionar problemas políticos e de infraestrutura regionais, além de promover investimentos consideráveis em tecnologia e formação de mão de obra especializada para desenvolver uma nova cultura de comércio exterior. Os desafios são grandes, mas as oportunidades de figurar entre os protagonistas da nova ordem mundial são maiores e plausíveis na visão de entidades internacionais, pelo menos no médio e longo prazos.

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