O Sindicato dos Operadores de Guindaste e Empilhadeira do Porto de Santos (Sindogeesp) promove na segunda quinta-feira do mês o Encontro de Aposentados. Com o objetivo de reunir os antigos associados para um café da manhã com muitas conversas e lembranças, o primeiro evento ocorreu na última quinta-feira, 10 de novembro. O Sindogeesp possui 600 aposentados cadastrados e cerca de 50 participaram da confraternização.

 

São homens que dedicaram mais de 30 anos ao porto. Trabalharam em uma época diferente, quando não existia tecnologia, o trabalho era braçal e as relações pessoais tinham grande importância. Conseguiram a casa própria graças ao cais, educaram seus filhos, vivenciaram o regime militar e, principalmente, conquistaram amizades para a vida toda.

 

Aos 78 anos, casado, com duas filhas e cinco netos, Milton Sacoman está aposentado há 33 anos. Vive em Itanhaém, onde alimenta os pássaros livres e pesca com seu barco. Mas sua vida não foi sempre esta tranqüilidade. Começou trabalhando nos guindastes hidráulicos, movidos à água e ar, em 1945. Depois passou para os guindastes elétricos.

 

Antigamente não havia muita tecnologia no porto. O serviço era embrutecido, mas tinha mais companheirismo. A falta de automatização fazia com que se tivesse de contar com o colega, que depois virava amigo. “Poucos tinham casa própria. Estávamos sempre mudando, conforme a família ia crescendo. Após trabalhar a noite inteira, ajudávamos na mudança do amigo. Tudo era feito com muita união”.

 

Sacoman foi diretor do Sindicato dos Operários e fundou o Sindogeesp em 1964, em plena ditadura militar. Ele afirma que quando a Lei 8.630 foi elaborada, os trabalhadores foram mal representados. Os responsáveis por adaptar a lei no prazo de três anos não foram escolhidos por competência, mas por política. O cais foi loteado por pessoas que não têm nada a ver com os portuários e têm outra visão. “Por isso, até hoje existe esta luta entre trabalhadores avulsos e sindicalizados”.

 

Antônio Germano do Nascimento Filho, de 73 anos, ingressou na oficina das Docas em 1947 e após nove anos passou a exercer a função de motorneiro de guindaste. Naquela época existiam poucas empilhadeiras no cais. Todo o trabalho era feito com carrinhos elétricos e guindastes.

 

Desde que se aposentou, há 22 anos, não entra no porto. Afirma não ter saudades do período militar, pois a renda foi reduzida e a jornada mudou. “Trabalhávamos uma semana de dia e na seguinte de noite, sofríamos com a mudança de horário. Além disso, o lanche que fazíamos das 23 a zero hora, que antes era farto, passou a ser um pão com ovo que trazíamos de casa”. Entretanto, diz que as amizades eram intensas. Os sindicatos se confraternizavam e havia várias equipes esportivas.

 

Trabalhou no cais até 1977, quando foi eleito presidente do Sindogeesp. “Como estávamos em plena ditadura militar, não podíamos fazer muito. Fazíamos nossas reivindicações, mas não éramos atendidos. Após esse período, o sindicato tornou-se mais forte”, relembra Germano. Hoje aproveita as horas vagas para caminhar, ir à praia, fazer compras com a esposa e curtir as duas filhas e os dois netos.

 

Com quase 36 anos de porto, Ernesto Fernandes Figueiredo, de 79 anos, começou na oficina mecânica. Trabalhou na Ilha Barnabé, na oficina de ferreiro, na torre, como motorista de empilhadeira e ajudante-chefe. Exerceu a função de motorista-chefe por 19 anos e teve cerca de 300 motoristas sob seu comando.

 

Entrava às 6h45, conferia as escalas dos motoristas, trazia as comunicações dos ajudantes e distribuía o trabalho. Era responsável pelos postos motorizados 4, 5, e 8. “Cuidava de todas as empilhadeiras da Cia. Docas. Controlava os gastos de gás e gasolina de cada uma, além da lubrificação e troca de óleo”, conta Ernesto.

 

Ele afirma que os trabalhadores respeitavam muito os chefes e diretores e que a classe era unida. “O porto movimentava Santos, que vivia às custas das Docas. Ao fazer uma compra, bastava dizer que era portuário e as portas se abriam, tinha crédito no ato. Depois que a Docas passou para Codesp tudo mudou. E a empresa virou um cabide de empregos”, relata.

 

Casado pela segunda vez, com dois casais de filhos e sete netos, Ernesto Figueiredo também foi um dedicado esportista. Montou o Transporte Quadro, time de futebol que foi pentacampeão nas Docas. Na Associação Atlética dos Portuários, onde esteve por 36 anos, treinou o time feminino de bocha, com 12 atletas e consagrado campeão quatro vezes. “Sou o único técnico santista campeão estadual de bocha”, orgulha-se. Ele também foi o primeiro treinador do filho, Márcio Fernandes, ex-jogador do Santos e da seleção brasileira e hoje técnico da equipe júnior do Peixe
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