(*) Décio Luiz Gazzoni

Responda rapidinho: no futuro próximo, o maior valor de mercado provirá da biotecnologia agrícola, médica ou industrial? Acertou quem falou industrial, que movimentará US$100 bilhões por ano, até o final da década, contra US$18 bi da agrícola e US$38 bi da biotecnologia médica. Outra pergunta: você usaria roupa feita de milho? Não diga desta água não bebo, talvez você o faça, pois até Gisele Bündchen está desfilando roupas produzidas com milho, usando processos biotecnológicos.

Novos negócios
A biotecnologia industrial promoverá uma revolução semelhante à automação e à eletrônica digital e o charme do momento são os bioplásticos (ou plásticos orgânicos). O Brasil começa a pegar a onda onde surfam, fagueiras, portentos industriais que desenvolvem bioplásticos derivados de plantas ou bactérias, com o uso de processos biotecnológicos. As utilidades são variáveis, como talheres, embalagens de fast food ou para alimentos frescos. Já roupas, acessórios ou cobertores é o negócio de Eddie Bauer, Versace e Giorgio Armani, que utilizam uma fibra desenvolvida pela Cargill Dow, a partir do grão de milho.

Bioplásticos
Do milho extrai-se o bioplástico (derivado da dextrose) e a fibra têxtil, duas inovações revolucionárias, que reposicionarão a indústria e modificarão o balanço entre os cultivos agrícolas. Por exemplo, serão as novas fibras têxteis um sucedâneo integral do linho, do algodão e do cânhamo? Se forem, essas culturas sofrerão um baque enorme, no futuro próximo, posta a maior competitividade do milho, inclusive pelo leque de aplicações, o que projeta mercado aberto e dinâmico e preços mais estáveis e previsíveis. Essa é a aposta da Cargill Dow, que investiu quase 1 bilhão de dólares nos polímeros polilácticos (PLA) e na fibra têxtil, ambos derivados de milho. Copos, pratos, sacos, caixas, filmes transparentes, roupas, cobertores, travesseiros e colchões são alguns produtos já disponíveis, porém novas aplicações do milho não param de surgir.

Inovação
A ironia deste salto tecnológico é que o potencial do PLA foi identificado em 1920, pelo inventor do náilon, o americano Wallace Carothers, que trabalhava na DuPont. Carothers. Ele tentou obter PLA de petróleo, sem sucesso. Já no novo século, o PLA foi viabilizado industrialmente, com o uso de técnicas biotecnológicas, usando bactérias que o extraem da dextrose do milho. Esse bioplástico não é tão versátil quanto derivados do petróleo como o polipropileno. Entretanto possui uma característica que se valoriza a cada dia no mercado: é biodegradável, sendo facilmente decomposto passado o tempo estimado para o uso proposto. Os produtos da degradação do bioplástico podem ser utilizados como adubos orgânicos.

Brasil
Entrou em operação uma indústria com capacidade de 4.000 t/ano, localizada em Serrana (SP). Utiliza derivados da cana para produzir PHB, um polímero biodegradável, sintetizado e acumulado como substância de reserva por bactérias, com propriedades semelhantes àquelas dos polímeros encontrados no mercado. Além de biodegradável, o PHB é biocompatível, com alta regularidade de cadeia polimérica e alto peso molecular o que permite inúmeras aplicações industriais, como embalagens flexíveis ou rígidas (frascos soprados, tampas plásticas e chapas para termoformagem), componentes cirúrgicos, dentre outros.

Mercado
O PHB é sintetizado por processo biotecnológico, sendo competitivo comercialmente, pela solução integrada do processo. A partir da cana-de-açúcar por síntese, extração e purificação do polímero com solventes naturais, obtém-se um produto com custo final muito baixo. Cada 3 quilos de açúcar produzem cerca de 1 quilo de plástico. Em comparação com o PLA, o plástico da cana é mais estável e resiste às altas temperaturas. O mercado mundial de plásticos é de 200 milhoes de t/ano. A produção de bioplásticos atual mal supera 1% da demanda, devendo crescer a taxas altíssimas nos próximos anos, abrindo um novo mercado para os produtos agrícolas. É a era da biomassaquímica chegando!

(*) Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja, sócio da Agrotrends Consultoria e Projetos e consultor Internacional do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foi diretor técnico da Embrapa, chefe geral da Embrapa Agropecuária Oeste, chefe geral da Embrapa Soja, diretor técnico da FAEA-PR e tem atuado como consultor de governos de diversos países para modernização de estruturas agropecuárias e implantação de projetos de pesquisa, sanidade agropecuária, desenvolvimento rural e extensão rural. Homepage.