Depois de uma dificuldade financeira familiar, Cláudia Vieira Peres à época com 26 anos, se deparou com uma dura realidade. Sem nunca ter tido um emprego fixo, precisou correr atrás de um trabalho para garantir o sustento.

 

Sem preconceito, a jovem que vivia uma vida considerada boa foi trabalhar como faxineira numa agência de navegação. Ela lembra: “Eu não sabia nada, nem como se fazia uma limpeza”. Ela conta que sempre mostrou interesse em aprender outras funções. Mesmo sendo “a moça da limpeza”, não se limitava à função. Perguntava ao chefe se precisava de alguma coisa, se podia ajudar em algo.

 

Dois anos se passaram, até conseguir a primeira promoção. Conseguira alcançar o posto de auxiliar administrativa. Ficou um curto período nesta função até que o seu gerente, Marco Antônio de Oliveira foi trabalhar na Santos Brasil e convidou alguns funcionários da agência para trabalhar com ele. Cláudia teve a sorte (e merecimento) de estar entre eles.

 

“Fiquei muito feliz na época, sempre tentava melhorar cada vez mais. Fui para a nova função e não tinha noção de nada. Nunca pensei que seria difícil e, sim, apenas uma mudança”.

 

Já se passaram sete anos desde que chegou na Santos Brasil para trabalhar no gate. No crachá está identificada como “apropriador de gate”. Parece que ainda não perceberam se tratar de uma mulher, a única de um universo de 45 vistoriadores e apropriadores de gate. Ela é responsável pela conferência da documentação do contêiner e do motorista do caminhão que saem da área do terminal.

 

Aliás, trabalhar com tantos homens não é problema para Cláudia. Ela diz que se vê forçada a aprender cada dia mais. “Eles não fazem fofoca como as mulheres, falam sobre tecnologia. Me  forçam a usar e a buscar conhecimento para não ficar de fora”. Esse relacionamento rendeu um outro fruto importante. Depois de uma discussão com um colega de serviço ficou com tanta raiva que resolveu prestar vestibular. Estudou muito e hoje cursa o segundo ano de administração de empresas. Agradece até hoje ao amigo pelo desentendimento.


Aos 34 anos, casada, a apropriadora de gate aprendeu a gostar dos críticos. “Às vezes a pessoa está mostrando algo que você não consegue enxergar. Eu passei a adorar os críticos. Eles nos mostram a direção“. Tornou-se otimista e hoje se considera uma pessoa motivada. Inclusive oferece palestras dentro da empresa sobre motivação. 

 

"A receita é ter um objetivo e transformar a adversidade em motivação”. Parece ter sido fácil a sua trajetória, mas Cláudia lembra da dificuldade encontrada no início.

 

Os homens, caminhoneiros, não admitiam receber ordens de uma jovem mulher. Aprendeu a usar o que a mulher tem de melhor, a conversa. “A mulher tem uma psicologia que os homens não têm. Não posso usar de ignorância com eles se não perco”.

 

Parece que o jeito especial de falar acaba convencendo o mais “machão” dos homens. Ela costuma lembrar ao caminhoneiro o porquê dele estar ali, trabalhando. “Sempre penso que eles podem estar aborrecidos, com sono”. Com toda a tranqüilidade e delicadeza, diz: “Você escolheu de manhã vir trabalhar, poderia estar na praia, mas resolveu trabalhar pela família”. Não adianta, eles acabam cedendo.

 

Finaliza dizendo: “Quem tem mais conhecimento deve ser mais
compreensivo”. Está aí a lição de casa.

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