A história do mercado brasileiro de construção está marcada por contínuos casos de desabamentos, rachaduras estruturais, alagamentos com avalanche de terra, entre outras tragédias que, em sua maioria, resultam em danos materiais irreparáveis e na perda de vidas humanas. Seja resultado de erros na montagem dos projetos ou da negligência com o material utilizado na obra, no Brasil, a inda é evidente o despreparo da iniciativa pública e privada para lidar com as tragédias, bem como preveni-las.

Algumas lições ainda não foram aprendidas. Mesmo com a repetição de episódios trágicos, como o recente desabamento de um viaduto em Belo Horizonte, Minas Gerais, os mesmos erros são cometidos no Brasil. Apesar das repercussões dos casos, não foram implementadas mudanças drásticas que beneficiassem, de fato, a qualidade das construções civis brasileiras.

Enquanto isso, países europeus com uma vasta cultura de prevenção, como Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, França e Espanha, assim como as cidades de Xangai e Cidade do México, já regulamentaram a obrigatoriedade da contratação do seguro decenal, que tem como objetivo apontar eventuais falhas estruturais ou do projeto.

A importância do seguro é clara: ele garante cobertura a todos os prejuízos originados de problemas estruturais de qualquer tipo de obra por dez anos após o término da construção, sendo a obra acompanhada de perto por engenheiros e técnicos. Esses analisam desde a adequação do solo à construção, quais os materiais usados, bem como sua quantidade e qualidade empregada no projeto.

No Brasil, o seguro decenal existe há quase dois anos, mas ainda não deslanchou. A contratação do mesmo pelas construtoras brasileiras, no entanto, esbarra principalmente em uma questão cultural. Em geral, o brasileiro ainda não está preocupado em prevenir-se de eventuais infortúnios, mesmo que esses ponham em risco a vida e o patrimônio, seus e de terceiros. Essa realidade vem sendo modificada aos poucos, em especial pela ascensão da classe média no país, mas a adesão em massa ainda é um desafio enfrentado diariamente pelo mercado segurador.

O grande número de lançamentos imobiliários e das obras de infraestrutura em todo o território nacional demonstra vigor do setor de construção. Mas o que é visto diariamente é um grande volume de projetos inadequados para construções e falta de acompanhamento técnico apropriado durante a obra. Esses são os pilares nos quais se sustentam um cenário que, na maioria das vezes, afeta principalmente as camadas da população de menor poder aquisitivo.

No entanto, a mudança de percepção é urgente. Os riscos nas obras ou até mesmo em construções que receberão os Jogos Olímpicos em 2016, como é o caso do Estágio Olímpico João Havelange, popularmente conhecido como Engenhão, interditado em março, acendem um alerta no mercado de seguros, no Governo e na população. Ou pelo menos deveriam. Como nesse e em outros casos, o investimento para readequar as construções e tomá-las minimamente seguras não poderia ter sido economizado se, desde o início, as obras tivessem sido planejadas adequadamente?

Apesar da tendência de evolução, a construção civil brasileira enfrenta hoje um período em que os desastres ainda são vistos como “falta de sorte” ou afetados muitas vezes pela fúria da natureza, como o excesso de chuvas, deslizamento de terras, entre outros fenômenos. Mas é preciso refletir: as empresas do setor estão fazendo o seu papel? As obras estão sendo projetadas com o maior cuidado possível? Ou ainda há no Brasil a predominância da cultura do “menos para mais”? Menos materiais para mais construções, menos mão de obra para mais projetos?

Os próximos anos serão cruciais para que a indústria brasileira de construção civil restabeleça uma relação de máxima confiança e credibilidade com a sociedade. Missão na qual o seguro decenal, obrigatório em países de primeiro mundo, poderia auxiliar, contribuindo para o desenvolvimento do setor e agregando valor e qualidade técnica aos empreendimentos públicos e privados.

Para os próximos três anos, a previsão é que esse seguro tenha uma importância segurada em obras de aproximadamente R$ 1,3 bilhão. O número é positivo, mas ainda há um longo caminho a ser trilhado. Não com sorte, é bom lembrar. A receita é simples: prevenção de riscos, investimentos sólidos e uma pitada de memória, para que as tragédias que aconteceram, finalmente, sirvam de lição.

Fonte: Brasil Econômico

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