Por Manuella Soares

“Vivemos uma crise de energia”. A afirmação é do engenheiro nuclear e físico Luiz Pinguelli Rosa, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diretor do Instituto Alberto Luiz de Coimbra (Coppe) e ex-presidente da Eletrobrás no primeiro governo Lula, referindo-se ao apagão que deixou dez estados e o Distrito Federal sem luz, no último dia 19. Ele defende a adoção da racionalização já de energia. A falta de energia aconteceu após o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) obrigar as empresas distribuidoras a realizarem o corte durante um pico de consumo em São Paulo, no período da tarde. Tradicionalmente, os picos de consumo se dão no período da noite, mas com o calor intenso nas várias regiões, especialmente no Sudeste, a quantidade de energia gasta com aparelhos de ar condicionado provocou o aumento do consumo e o sistema sofreu uma suspensão entre 14h e 15h45, com perda de cerca de dois megawatts do sistema total.

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Ele não descarta a ocorrência de outros apagões este ano nem a necessidade de o governo impor uma racionalização. É crucial que o governo federal, defende o professor, adote uma política intensa e urgente para esclarecer a população sobre a situação e a necessidade de baixar o consumo para evitar as medidas restritivas. “Para mim, isso já devia ter começado ontem, amanhã. A racionalização é já.”

Foto: site jogo do poder
Pinguelli defende a adoção da racionalização já de energia elétrica em todo o território brasileiro

Para evitar o risco real de apagão, sugere o que chama de “racionalização do consumo”. “Alguma medida deve ser tomada”, adverte. E completa: “Não sei se a melhor palavra é racionamento, eu falaria em racionalização, ou seja, evitar o uso excessivo de energia elétrica.” Por isso, Pinguelli relaciona algumas medidas domésticas que podem ajudar, como não deixar luzes acesas inutilmente, geladeiras abertas por muito tempo, não usar o ar refrigerado no máximo da sua capacidade. “Não há uma política de alerta à população de que já estamos em uma situação crítica.” Observa, ainda, que as hidrelétricas já estão em um nível muito baixo.

Para Pinguelli, o problema não ocorreu somente no estado paulista. “Havia uma restrição de transmissão nas rodovias do Norte, em Tucuruí, segunda usina do Brasil depois de Itaipu. Assim, houve a queda devido à variação de frequência em várias usinas, começando por Angra 1 e outras hidrelétricas e termoelétricas”, explica. Essa queda nas redes, acrescenta, impossibilitou o atendimento da demanda e “para evitar uma queda descontrolada do sistema, o órgão regulador mandou fazer um desligamento seletivo, em áreas consideradas de impacto menor”.

Como em 2001
Na comparação com os apagões que atormentaram a população em 2001, Pinguelli afirma que poderá vir a ser necessário obrigar os brasileiros a reduzirem o consumo como naquele ano. “O problema vulnerável, hoje, é que o nível dos reservatórios está em 17% na região Centro Oeste e 6% no Sudeste, onde estão as maiores e mais importantes hidrelétricas.”

Para manter o sistema funcionando sem ameaças, os reservatórios deveriam chegar em abril, último mês de chuvas, com um nível acima de 50%, o que, segundo o professor, não acontecerá.

Além da falta de chuvas, Pinguelli considera que deveria ter havido um planejamento melhor por parte dos governos, pelo menos nos últimos dois anos, para evitar um colapso, agora, em 2015. “Além de poupar energia, o governo deveria ter utilizado mais as termoelétricas do que foi usado, apesar do alto custo.”

Além do custo, as termoelétricas causam forte impacto ambiental emitindo altas doses de gás carbônico, aumentando a poluição e, consequentemente, o efeito estufa. Todavia, o professor defende a utilização do sistema. “Sem elas, já estaríamos sem energia”, argumenta.

Na segunda parte da entrevista ao Portogente, que será publicada nesta quarta-feira (28/01), o físico critica o atraso na construção da usina nuclear Angra III, no Estado do Rio de Janeiro, o vilão da vez, o aparelho de ar condicionado, e a aplicação de multa para quem exceder no consumo de energia elétrica.

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