O comandante Edison Botelho Calenzo é um carioca, torcedor do Fluminense, que gosta muito de morar na Cidade de Santos. Trabalhou a bordo por 22 anos, dedicando metade desse tempo viajando para o exterior como comandante de navio petroleiro.

O comandante Edison Botelho Calenzo, 64 anos, comandante de navio e analista em transporte marítimo, atualmente é gerente da Praticagem de Santos. Natural da cidade do Rio de Janeiro, está radicado em Santos há 12 anos.

A navegação entrou para sua vida muito cedo. Em 1958, então com 18 anos de idade, se inscreveu na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM), hoje, Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (CIAGA). Formado em 1960, começou a viajar em navios como praticante. No ano seguinte, como 2º Oficial de Náutica deu início a atividade profissional, efetivamente.

O comandante Calenzo trabalhou a bordo até dezembro de 1982 quando foi requisitado para o setor administrativo da FRONAPE – Frota Nacional de Petroleiros da Petrobrás, onde atuou por 10 anos. Em setembro de 1992, se aposentou, porém foi convidado a gerenciar a Praticagem de Santos, mudando-se para o litoral paulista no mesmo ano com a esposa e os dois filhos.

Segundo o comandante Calenzo, para o profissional chegar ao posto de comandante de navio precisa fazer vários cursos, especializando-se em algumas funções que são indispensáveis dentro da embarcação. Explica que primeiro o candidato se forma como 2º Oficial de Náutica que é o responsável pela segurança de bordo, depois se torna 1º Oficial de Náutica que cuida da operação de carga e descarga da embarcação, juntamente com o Imediato que é o responsável direto pela disciplina e todas as operações. Já o Comandante ou Capitão de Longo Curso que comanda o navio para viagens ao exterior supervisiona a tripulação e toda a atividade operacional dentro da embarcação.

Hoje, a vida em alto-mar não distancia tanto a tripulação de suas famílias e mesmo do contato com o armador, como nos tempos em que o comandante Calenzo entrou para a Marinha Mercante. A comunicação era um dos desconfortos da viagem “Quando comecei era uma época mais romântica, pois até telefonar para casa era difícil. Era uma aventura porque íamos para um determinado porto e em terra recebíamos a comunicação para seguir para outro porto”.

Calenzo conta que a dificuldade de comunicação dava ao comandante maior autonomia. Detinha o poder de decisão sobre qual a melhor rota a seguir, autoridade para prender alguém, realizar casamentos e tomar providências quanto ao destino do corpo de uma pessoa que morreu a bordo. Ressalva que apesar da tecnologia e da facilidade de comunicação que existem atualmente, a última palavra ainda é do capitão de longo curso, com a diferença de que tudo o que ocorre durante o percurso pode ser informado ao armador, agências de navegação e autoridades, em tempo real, promovendo uma ampla visão da decisão mais correta a ser administrada.

Lembra que esteve a bordo de um navio cujo destino era Chile-Golfo Pérsico, que ficou navegando pelo exterior por 10 meses. Calenzo permaneceu nessa embarcação por sete meses, o período mais longo fora de casa. “A tripulação era maior e se houvesse tempo na operação, podia-se dividir o pessoal, o que possibilitava ir para terra. Havia mais liberdade. Hoje com a tripulação reduzida, é mais difícil deixar o navio, pois há muito trabalho a bordo”. Curiosamente, Calenzo esclarece que apesar das viagens pelo mundo, os tripulantes acabam conhecendo muito pouco dos países onde os navios atracam. Há lugares em que não é permitido sair da embarcação, como em alguns países do Golfo-Pérsico e em outros, muitas vezes, não sobra tempo para um passeio. “O que dizem sobre ter uma mulher em cada porto, é folclore,” comenta.

Preocupado com o bem estar de sua tripulação para o bom desempenho da atividade profissional, o comandante Calenzo sabiamente promovia confraternizações, como comemoração de todos os aniversários, roda de samba às quintas-feiras e providenciou instrumentos musicais e jogos de camisas de futebol, com a FRONAPE. Bebidas alcoólicas não eram permitidas, só em algumas ocasiões e mesmo assim, cada tripulante tinha uma cota de consumo. “Tinha que dar um jeito de o cara não ficar parado pensando na saudade. Nos meus 11 anos de comando, nunca tive um problema de indisciplina a bordo. O que é muito difícil por conta do isolamento e do tamanho gigantesco do navio”.   

Calenzo diz que só sentiu o quanto perdeu dos melhores momentos de sua vida, como o crescimento dos filhos, acompanhamento na escola, depois que passou a trabalhar em terra firme. No entanto, não se arrepende “uma das coisas boas da profissão é ter autonomia, iniciativa, mas a ausência da família é cruel”, confessa.
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