O Brasil enfrenta uma greve turbulenta de caminhoneiros e fica claro para o país o que revoltava os trabalhadores e quais efeitos práticos a greve tem no dia a dia. Mas, para a população em geral, ficou um pouco menos claro em relação às causas e os efeitos na economia brasileira.

Caminhoneiros AgenciaBrasil

O CEO da WM Manhattan (mesa proprietária que atua e ensina investidores a atuarem na bolsa de valores), Pedro Henrique Rabelo explica os efeitos diretos e indiretos na economia, na bolsa de valores e no mercado externo.

De acordo com Pedro, os efeitos diretos de toda essa crise são um pouco mais claros do que os indiretos. A greve causou prejuízos que superam os 34 bilhões de reais para os grandes setores da indústria. Apenas o setor pecuário teve um prejuízo de cerca de 8 a 10 bilhões, e o varejista de 5,4 bilhões. Os distribuidores de combustíveis perderam um faturamento de cerca de 8 bilhões.

“Todo esse prejuízo tem efeito direto na bolsa de valores e nas ações de diversas empresas que dependem de combustíveis e de frete. A Petrobrás, especialmente, teve uma desvalorização de cerca de 27% de suas ações e corre o risco de devolver toda a alta de 2018 a depender das decisões tomadas nessa crise”, destaca Pedro Henrique Rabelo.

Histórico da alta dos combustíveis
Passamos por um momento no governo Dilma em que o preço da gasolina se descolou do valor praticado internacionalmente e o governo congelava artificialmente os preços (não só da gasolina, vide os onerosos subsídios no setor elétrico) de forma a passar para população uma sensação de tranquilidade e estabilidade. No curto prazo, principalmente no que diz respeito a objetivos populistas, essas medidas são extremamente efetivas, mas ao longo prazo ocorre o que o tempo demonstrou: A Petrobrás quase quebrou.

O que Temer fez durante seu período no governo foi voltar a indexar o preço da gasolina aos preços internacionais, o que era a decisão mais lógica por dois motivos: 1. Existe a crença de que o Brasil é autossuficiente na produção de gasolina devido a nossas grandes reservas de petróleo. Acontece que existe mais de um tipo de petróleo (pesado e leve) e o que produzimos não é o mais adequado para refinar gasolina. 2. Se a Petrobrás vender internamente a um preço não competitivo com o que poderia cobrar exportando, estaria se suicidando enquanto empresa.

E é sempre bom lembrar àqueles que não estão preocupados com os lucros da Petrobrás ou com seus acionistas que os principais acionistas da empresa são o governo, a Caixa Econômica Federal e fundos de previdência de trabalhadores. Ou seja: somos nós. “As principais razões para a alta dos combustíveis são, portanto, duas: a alta do petróleo e a alta do dólar”, enfatiza Pedro.

Além disso, a alta carga de impostos que recai sobre o combustível torna nosso preço bastante alto. Mas vale lembrar que a gasolina está tendo elevações de preço no mundo todo e também que não adianta simplesmente cortar impostos sem antes cortar gastos, ou só estaríamos aumentando o tamanho do déficit.

Efeitos indiretos da crise dos caminhões
Os efeitos indiretos dizem respeito principalmente a imagem que o governo brasileiro passará aos investidores. “Vínhamos em uma toada de otimismo, com o mercado percebendo um direcionamento menos intervencionista na política econômica de Henrique Meireles e isso estava se refletindo na bolsa como um todo, apesar de toda a desvalorização do câmbio (causada muito mais por fatores externos). Agora, as incertezas aumentam com o governo falando de subsídios para abaixar os preços do Diesel e a depender de até que ponto a Petrobrás será obrigada a arcar com isso, teremos um cenário pior pela frente”, explica o CEO da WM Manhattan.

Acontece que em um cenário positivo para o investimento nos Estados Unidos em comparação com o risco dos países emergentes, qualquer desvio de caminho pode elevar a expectativa de inflação e trazer mais incertezas quanto a taxa real de juros. De acordo com Pedro Henrique Rabelo, “o custo de baixar artificialmente os preços ou de cortar impostos sem antes cortar gastos fará com que o país aumente a previsão de déficit fiscal, aumente a dívida e consequentemente diminua o interesse do investidor estrangeiro em investir no Brasil”.

Isso tudo pode ter consequências catastróficas para bolsa brasileira que já não caminhava com todo o otimismo que poderia desde que o governo falhou em entregar a reforma da previdência em 2017.

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