A vista para um longo vale entre os morros da Conceição e do Livramento era o que aguardava os sobreviventes que desembarcavam no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, depois de uma viagem degradante entre a África e o Brasil, no século 18.

Dos quatro milhões de africanos escravizadas do outro lado do Atlântico e que chegaram vivos para o trabalho forçado, um milhão passaram pelo Valongo – o que torna o porto a principal porta de entrada de mulheres e homens escravizados nas Américas.

Por ser o único local de desembarque do tráfico negreiro que restou preservado no mundo, o Cais do Valongo, já declarado patrimônio carioca e nacional, deve se tornar agora patrimônio mundial da Unesco, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Uma comissão do órgão vistoriou o antigo atracadouro em setembro e a expectativa é que em maio de 2017, o Brasil saiba se são suficientes ou não as condições apresentadas em um dossiê de 400 páginas. A inscrição foi feita pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, e a decisão sai em junho do ano que vem.

O Cais do Valongo foi desativado por leis que proibiam o tráfico transatlântico e foi aterrado para receber a imperatriz Teresa Cristina, no Rio de Janeiro de 1843. Recentemente, durante obras de revitalização da região portuária, o cais acabou redescoberto, como explica o antropólogo e coordenador da candidatura do cais a patrimônio, Milton Guran.

No antigo porto, foram encontrados milhares de vestígios da passagem de africanos de diversos países e etnias. Entre os objetos, búzios utilizados à época como moedas, colares, cachimbos, brincos e braceletes. São mais de um milhão e meio de peças, guardadas em um galpão e que só devem ser expostas ao público em 2018.

A prefeitura do Rio de Janeiro e o IPHAN querem que o material fique em museu próximo ao cais.

Integrante do grupo da sociedade civil que monitora a candidatura do Valongo à patrimônio da Humanidade, Giovanni Harvey, ex-secretário executivo da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e morador do bairro do bairro do porto, explica que o local é parte de um “quebra-cabeça' da diáspora africana.

Para Harvey, que já esteve na Casa dos Escravos, em Goré, no Senegal, na costa oeste da África, onde os escravizados eram embarcados o Valongo é uma referência material, que prova a chegada de africanos escravizados no Brasil.

O antropólogo Milton Guran também aposta no tombamento do cais por ser um marco da violência da escravidão e lembra que já foram tombados pela Unesco os portos de embarque de africanos escravizados para as Américas em Goré, no Senegal, o Castelo El Mina, em Gana e o porto da Ilha de Moçambique, em Moçambique.