Editorial | Coluna Dia a Dia
Portogente
Já viu um fantasma? Bem, se você mora em Santos ou Paranaguá, certamente sim. Nem percebeu. Porque os fantasmas que visitam estes lugares não têm feições humanas ou lençol. São navios. Existem milhares deles, muitos são antigos petroleiros, navegando à sombra de bandeiras até estranhas, por não serem de países tradicionais nesse mercado.
O leitor diria que são bandeiras de conveniência ou “terceiras bandeiras”, mas há uma diferença fundamental: eles navegam na ilegalidade, somem pelo caminho. Nas sombras dos sistemas de rastreamento e controle marítimo internacional. Da documentação. Do Direito Internacional. Dos seguros marítimos. Das normas ambientais. E isso é um grande problema. Ou melhor, são milhares de problemas navegando pelos mares, com o crescimento exponencial dessas frotas, cada vez mais em evidência.
Veja mais: Russian shadow fleet - Wikipedia/EN - 8/3/2026
Por que essas frotas fantasmas existem? Elas florescem principalmente como formas de burlar restrições econômicas e/ou políticas à navegação. Como quando um país enfrenta um bloqueio internacional.
Como aconteceu com a Rússia, quando decidiu invadir a Ucrânia. Precisando escoar sua produção de petróleo e gás, armadores russos aumentaram a contratação no mercado clandestino o aluguel de antigos petroleiros, no final de sua vida útil, para esses transportes não oficiais.
O resultado é que só a Rússia tinha uns 1.400 navios clandestinos em 2023, agora já triplicou essa frota. Esses navios não transportam só combustíveis: podem estar sendo usados para contrabandos diversos, armas, munições...
Veja mais: EUA apreendem petroleiro com bandeira russa associado à Venezuela - Portal do Mar-PT, 7/1/2026
Então, tenha a certeza de que muitos outros países, grandes ou pequenos, terão também frotas secretas para servirem aos seus interesses econômicos e políticos. Venezuela tinha embarcações assim. Irã também. Alguém acredita que os EUA e a China não tenham?
Bom lembrar que, logo após o tarifaço Trump/2025, empresas brasileiras debatiam abertamente opções para burlar as restrições e fazer suas mercadorias chegarem ao destino sem essas tarifas extras... E o país também recebeu muito combustível russo disfarçado de venezuelano...
Sob alegações diversas, nem sempre verificáveis, embarcações de todo tipo e tamanho foram apreendidas, paralisadas, explodidas. Tripulantes foram presos ou morreram. Sabendo disso, quem vai colocar neste serviço clandestino um navio moderno, com todos os itens de segurança exigidos hoje, especialmente no transporte de combustíveis e explosivos?
Isso conduz a outro problema: se existe grande risco, quem vai garantir o seguro obrigatório de um navio fantasma? Evidente: uma seguradora fantasma. Que desapareça antes mesmo do navio sinistrado afundar.
Em outras palavras: as vítimas engolem em seco os prejuízos, não existe a quem reclamar: o próprio país locatário da embarcação não reconhece responsabilidade sobre ela (isso implicaria em sanções maiores e imediatas, que poderiam atrapalhar interesses geopolíticos).
Se um navio carregado de gás explodir na área de um porto, destruindo-o e vitimando as cidades no entorno, que pena. Se, numa transferência secreta de cargas entre navios (para burlar vigilâncias) parte do produto poluir o mar? Se uma rota de navegação internacional ficar intransitável? Se o navio transportar armas e tiver de ser explodido por um avião bombardeiro ou um míssil (ou um drone), quem paga a retirada dos destroços? Pois é...
O Parlamento Europeu, não é de hoje, vem buscando combater esse tráfego. Existem muitas pressões internacionais, tanto por motivações políticas como econômicas, afora todos os riscos envolvidos.
Os EUA desafiam normas internacionais, para explodir ou apreender esses navios. E usam tal problema como forma de justificar suas ações, enquanto ameaçam e desestabilizam nações para se submeterem a seus interesses. Não são os únicos a reclamar, nem podem “atirar a primeira pedra”...
Não importa que eles também façam, importa o que dizem.
Veja mais: Alarm over ‘exploding’ rise in use of sanctions-busting shadow fleet - The Guardian-UK, 21/12/2025.
NS Champion, um dos navios que os EUA consideram integrar a frota fantasma da Rússia
Foto: Wikipédia/Kees Torn








