O governo chinês não está satisfeito em ampliar os "tentáculos" de suas empresas locais e aumentar sua influência no comércio global. Diversos ativos de infraestrutura à venda no Brasil interessam estrategicamente ao país asiático. No setor logístico-portuário, o principal exemplo se constitui na compra de 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), considerado um dos mais produtivos na costa brasileira. A aquisição foi feita pela China Merchants Port (CMPort), uma das maiores operadoras de terminais de contêineres do planeta.

Para melhor entender como este negócio irá influenciar nas operações do TCP, Portogente entrevistou o CFO - ou diretor financeiro - do empreendimento, Alexandre Rúbio.

tcp paranagua

Bruno Merlin, Portogente - A China já é o país com maior participação no comércio global, à frente dos Estados Unidos, e demonstra agressividade nos investimentos portuários, o que inclui a compra de terminais e ativos do setor no Brasil. Quais foram os elementos decisivos para a compra de 90% do TCP?
Alexandre Rúbio - O Terminal de Contêineres de Paranaguá é um dos principais terminais na sua área de influência, se destacando no comércio exterior da América do Sul. Além de contar com um contrato de arrendamento até 2048, uma das mais longas disponíveis em todo o mundo, nos últimos cinco anos realizamos um amplo projeto de modernização e ampliação do terminal, transformando-o em um dos mais produtivos da América do Sul. O TCP atualmente tem capacidade para movimentar 1,5 milhão de TEUs/ano, conta com 320 mil m² de área de armazenagem e oferece três berços de atracação, com extensão total de 879 metros, além de dolfins exclusivos para operação de navios de veículos. É também o único terminal de contêineres do Sul do Brasil que conta com conexão ferroviária direta, dentro do pátio, o que o torna líder no mercado brasileiro neste modal, movimentando 6 mil contêineres por mês. Neste modal o TCP oferece dois encostes por dia, operando 24 horas tanto na exportação quanto na importação.

Bruno Merlin, Portogente - Quais são os principais obstáculos - de infraestrutura, ambiente de negócios, culturais... - a superar no território brasileiro? E há planos de expansão de atividades em Paranaguá ou outros portos?
Alexandre Rúbio - O investimento na TCP é o primeiro da CMPorts na América Latina. Isso torna a TCP uma plataforma para futuros negócios da empresa, seja por aquisição ou expansão. É uma visão que está alinhada com o que a CMPorts tem realizado em todo o mundo. É claro que existem obstáculos. Mas quem investe no Brasil e na América Latina sabe que está suscetível a ciclos de crise e crescimento. Entretanto, o Brasil é um mercado em expansão e a China é um dos principais parceiros comerciais do País. Hoje, 25% de toda a movimentação de contêineres em solo brasileiro tem como origem ou destino aquele país. A tendência é que o volume de cargas movimentadas por Paranaguá cresça e que o Terminal se torne um dos principais destinos para importadores e exportadores que têm negócios com aquele país. Sobre os planos de expansão, a TCP já está realizando a maior obra do estado do Paraná e a maior do País no setor portuário atualmente. O terminal passa por uma expansão no cais de atracação, que ganhará mais 220 metros contíguos e lineares, passando a contar com 1.099 metros de extensão; a construção de dolphins exclusivos para a atracação de navios que fazem o transporte de veículos; e a ampliação da retroárea do terminal, que hoje conta com 330 mil m2 e que será ampliada para cerca de 500 mil m2. Os investimentos totais são de R$ 1,1 bilhão. Em paralelo, a TCP também está investindo na aquisição de dois novos portêineres fabricados pela empresa chinesa ZPMC (Shanghai Zhenhua Port Machinery Co. Ltd). Os equipamentos devem chegar à Paranaguá até agosto de 2019. Os portêineres da ZPMC serão os maiores do Brasil, com 66 metros de alça, podendo alcançar até 24 fileiras no navio, tamanho suficiente para atender aos maiores navios de contêineres que atracarão no Brasil nos próximos anos.

Bruno Merlin, Portogente - O “Made in China 2025” é um plano de Pequim para investir centenas de bilhões de dólares em setores como robótica, carros elétricos e computação, com o objetivo de se tornar um líder global em tecnologia. O Brasil, no entanto, ainda depende muito das commodities e tem pouca força internacional nestes segmentos. O que é preciso fazer para reverter este panorama? Como a CMPort e o TCP podem colaborar?
Alexandre Rúbio, TCP - Apesar de não serem empresas voltadas para a tecnologia, a TCP e a CMPorts têm o objetivo de promover um intercâmbio cultural, discutindo as melhores práticas, integrando sistemas, e beneficiando toda a cadeia logística com soluções inovadores. Neste sentido, a TCP criou o TCP Labs, laboratório de inovação que tem por objetivo desenvolver soluções que facilitem o dia a dia dos clientes da empresa. O projeto é uma iniciativa da superintendência de customer service da empresa, recém-criada a partir da unificação das áreas de Tecnologia da Informação e Atendimento ao Cliente. A TCP é uma das primeiras empresas de logística do Brasil a ter uma área dedicada à inovação e integração com o cliente. Outro exemplo de que a TCP se dedica à tecnologia é que, no ano passado, a empresa promoveu a substituição do sistema operacional. A empresa implantou o sistema de CRM (Customer Relationship Management / Gestão de Relacionamento do Cliente) da Salesforce para aprimorar o engajamento com clientes por meio dos módulos Salesforce Sales Cloud, de gestão de vendas, e Salesforce Service Cloud, voltado ao atendimento ao cliente e ao pós-venda. São ferramentas que permitem a gestão de todos os clientes e avaliação em tempo real de toda a movimentação que está acontecendo desde a prospecção do cliente até a pós-venda, da proposta comercial até a Central de Atendimento ao Cliente.

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