Renan Padilha* Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Práticas na Educação Básica pelo Colégio Pedro II. É docente da área de Linguagens e Sociedade, curso de História, no Centro Universitário Internacional Uninter.

Quando o protagonista de uma história ficcional se encontra em apuros, cercado, sem nenhuma solução clara pela frente, existem várias maneiras de a autora dar prosseguimento à narrativa. Uma dessas maneiras é, talvez, a mais preguiçosa e previsível: “Deus ex machina”. A expressão em língua latina significa “Deus surgindo da máquina” e representa uma solução externa à narrativa ficcional que se apresentava. O protagonista recebe superpoderes, ou um objeto de poder, ou mesmo um deus vem em seu auxílio. Como disse, uma solução fácil e simplista para um problema que poderia ser complexo, mas não insolúvel.

O processo educativo, em todos os seus âmbitos macros e micros, é complexo e de difícil solução. Não é de hoje, inclusive, que se aponta que, tal como o protagonista da história ficcional, a educação encontra-se em apuros. Cercada, atacada, violentada ao longo dos anos, possui enorme dificuldade de cumprir seu papel social e contribuir para a construção de uma sociedade livre e justa para todos.

Nesse quadro, a solução é tão complexa quanto o problema e, talvez, mais misteriosa. Ainda assim, a forma como a tecnologia digital no processo educativo tem sido apresentada desde, pelo menos, os anos 1990 (e possivelmente antes disso) carrega característica do “Deus ex machina” das histórias ficcionais.

No lugar de um autor preguiçoso ou pouco criativo, temos alguns gestores, empresários e até parte dos educadores para os quais o uso das tecnologias digitais é a solução em si para todos os problemas da educação. Essa visão está carregada de uma doutrina tecnicista, que se apresenta com nova roupagem atenta à linguagem e ao pensamento do século 21.

A pandemia de Covid-19 acelerou esse processo. As necessidades de distanciamento social fizeram do uso da internet o caminho para a não paralização das atividades humanas em geral e do processo educativo em particular. Apesar de alguns setores da sociedade anunciarem-se felizes com a possibilidade de ampliar o uso da tecnologia digital no processo de ensino-aprendizagem, a realidade é que esse contexto histórico escancarou desigualdades sociais e regionais que já existiam, além de expor os educadores ao aumento de sua carga de trabalho, com resultados cada vez piores.

Não estou querendo dizer que a tecnologia digital é, portanto, um problema. Longe disso! É obrigação da educação absorver o desenvolvimento tecnológico e produtivo da humanidade e acompanhar a sociedade ao seu redor. A tecnologia digital abre possibilidades que jamais poderíamos pensar há 20 anos. Mas precisamos ter muito claro que ela é uma ferramenta incrível, que nos permite pensar em diversas soluções para o processo educativo e não a solução em si.

Acreditar que a tecnologia digital, por si só, resolverá os problemas da educação é esperar que a solução caia do céu. Porém, se em um livro de ficção, o uso do “Deus ex machina” tem como consequência, no máximo, o desapontamento do leitor, na educação as consequências são muito mais graves.

É preciso compreender que os caminhos que devemos percorrer para alcançar os objetivos da educação passam por uma complexa rede de pessoas e instituições, que devem estar dedicadas em um amplo e fraterno debate democrático, que respeite os interesses coletivos da população e rejeite a apropriação do que é público por indivíduos isolados. E, em todo esse processo, a tecnologia digital é uma ferramenta essencial para potencializar essa busca incansável e complexa por uma educação de qualidade e para todos.

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